Um brinde à esperança
Devaneios sobre o you seem pretty sad for a girl so in love e a arte de contar histórias
Olivia Rodrigo lançou o álbum do ano. Eu sou suspeita para falar, eu sei, mas eu posso ser suspeita e ainda estar certa quando digo que esse é o melhor álbum lançado por uma cantora de vinte e poucos anos na última década.
Nota da autora: Até um tiquinho mais do que isso… Uns 14 anos, eu chutaria… Mas acho que estou proibida de mencionar a dona do álbum de três letrinhas que, no meu ver, foi o último a gerar um impacto como o do you seem pretty sad for a girl so in love em termos de trabalhos excelentes com um forte amadurecimento de temas e da sonoridade.
Eu canto a pedra de que a Olivia tem um pé mais no rock do que no pop há muito tempo, e eu não consigo mentir… É muito bom finalmente ter uma comprovação. O you seem pretty sad for a girl so in love é um disco new wave por definição — segundo uma Billboard de 78: “o desenvolvimento do declínio do punk rock, trazendo uma abordagem que une a energia e a urgência do punk com um maior polimento, um amadurecimento dos temas e um toque de pop” — e não poderia ser uma amálgama melhor das referências de Olivia dentro da música.
O disco não é revolucionário, mas é, acima de tudo, autêntico. E essa tem sido uma marca recorrente na carreira de Olivia, que nunca deixou de vestir o coração na manga em mais de um sentido: as suas composições são sempre guiadas pelos seus sentimentos, mas também marcadas por tudo o que ela ama em outras composições. Além disso, o fato de que ela tem boas referências é o que faz a maior diferença, sempre. The Cure, New Order, Fiona Apple, Alanis Morissette e The Smashing Pumpkins são apenas alguns dos nomes que a influenciaram na composição de seu terceiro álbum. Robert Smith, vocalista da The Cure, está até em uma das faixas do álbum.
Dentro do panorama musical atual, é inegável afirmar que Olivia vê mais longe por estar apoiada nos ombros — e nas guitarras — de gigantes. A cantora não está reinventando gênero nenhum e muito menos propondo uma revolução, mas se destaca justamente por bater continência aos astros que a inspiram e trazer de volta faíscas dos gêneros que o mainstream não vê há um bom tempo.
Quanto às temáticas, you seem pretty sad for a girl so in love é o álbum mais conceitualmente coeso de Olivia. Ela recusou o rótulo de álbum conceitual… mas ele meio que é um: conta uma história linear, de um primeiro encontro até depois do término, e o faz com excelência. O lado girl so in love começa a história como um conto de fadas, a faixa purple rompe a fantasia e o lado you seem pretty sad explora a melancolia que restou. Mas o álbum me fascina, sobretudo, por conta dessa qualidade do ato de contar histórias, que é um dos meus temas favoritos para pensar e discutir.
(Outra) nota da autora: devo deixar aqui um abraço para a minha professora e os meus colegas da disciplina de Escritas Criativas na Pesquisa, mesmo que eles não vejam isso, porque todo o texto daqui pra frente surgiu na minha cabeça durante as nossas discussões na última aula. Eu escutei o álbum no metrô e ainda estava com ele muito fresco na cabeça quando cheguei em sala, por isso as conexões que eu jamais teria feito em outras condições. Mas agora que fiz, só me resta escrevê-las: façam o que quiserem com o resultado.
Dentro do you seem pretty sad for a girl so in love, contar a história é uma necessidade e um ato de sobrevivência. Mas Olivia Rodrigo, apesar de ter apresentado um disco muito diferente do que estamos acostumados a ouvir, não é nenhuma pioneira nisso: mulheres já estavam se salvando por meio de histórias lá em Mil e Uma Noites. É interessante, para mim, pensar na narrativa de Scheherazade através de duas perspectivas, que curiosamente se encaixam nas duas fases do álbum de Olivia (quando fazemos o exercício de pensar na morte apenas no sentido metafórico, cabe mencionar).
Em um primeiro momento, após o casamento — o início do relacionamento — Scheherazade conta histórias para encantar e continuar encantando o seu parceiro. Para manter viva a fantasia por mais um dia, depois mais um, e então mais um outro. O que ela faz por mil e uma noites, Olivia faz por cerca de seis faixas do álbum: ela constrói o início de um relacionamento perfeito, e, mesmo revisitando as composições após o término, decide manter a narrativa dessa forma. É difícil falar por ela, mas o que transparece nas composições — principalmente para quem sabe como a história termina — é uma tentativa de cristalizar os bons momentos para que eles durem mais, mesmo que só na memória. Existe um esforço de repetir uma fábula para si mesma e para o seu parceiro, na intenção de mascarar qualquer rachadura e ignorar qualquer possibilidade de ruína. Não há motivo para preocupação quando existe amor, felicidade e uma saudade insuportável que mal cabe no peito.
i’m a sad shell of a woman, and i’ve got maggots for brains
but that’s just a thing that happens when my
when my baby goes away
- maggots for brains
Por outro lado, e talvez de forma mais importante, contar histórias é o que mantém Scheherazade viva, literalmente. E isso até pode ser comparado com a versão feliz e apaixonada da Olivia do lado girl so in love, mas me parece mais interessante pensar nessa lógica dentro da segunda metade do álbum. Mesmo quando a fantasia se desfaz, ainda existe a necessidade visceral de continuar escrevendo, ainda que a história contada já não seja bem a mesma. Em u + me = <3, Olivia diz saber que todo mundo muda, mas que espera que isso não se aplique a ela e ao seu parceiro. No fim das contas, aquilo que ela sabe se confirma, mas o fator invariável dessa equação é um só: ela.
Mesmo quando as peças se desencaixam e tudo muda, Olivia ainda é o centro da história. E mesmo com a angústia, a culpa e a melancolia, escrever e continuar contando histórias ainda é o meio que ela conhece para se salvar — e para se manter viva, de certa maneira. Para uma pessoa ansiosa, isso é ainda mais literal do que qualquer um de nós gostaria de admitir. Os pensamentos têm que ir para algum lugar: um caderno, uma conversa, uma história, uma música ou o que for. Quando eles são dados ao mundo, como em um álbum, o que vale para uma vale para muitos: ela, como compositora, precisa escrever histórias tanto quanto nós precisamos ouvi-las.
Que atire a primeira pedra quem nunca escutou uma música de Olivia e se perguntou “quando foi que eu contei isso para ela?”. Eu já não tenho mais um problema em admitir que é difícil pensar em uma música dela que não tenha me deixado assim nem com um verso sequer, e a sensação, apesar do choque inicial, nunca deixa de ser deliciosamente desconcertante. É um baita alívio escutar os seus sentimentos sendo cantados de volta para você com uma eloquência — e uma beleza — que você, pessoalmente, não saberia colocar em palavras. Mais do que isso, é um tanto catártico pensar que o seu sentimento não é individual. A breguice do “você não está sozinha” é, infelizmente, uma breguice da qual sou muito fã, porque ela acaba sendo um empurrão bastante necessário para a aceitação de um monte de coisas.
Como fã, mas principalmente como uma jovem bastante ansiosa na mesma faixa de idade de Olivia, sempre apreciei muito a honestidade dela em deixar que o mundo saiba que as coisas estão fora dos eixos, mesmo que elas continuem de pé. Desde o SOUR, o apelo de abraçar o caos e os sentimentos “feios”, como a raiva e a inveja, sempre me pareceu fascinante. Isso se expande no you seem pretty sad for a girl so in love quando ela abraça, também, a melancolia e o “sentido-aranha” de que existe algo de errado em algum lugar que não estamos olhando — dois sentimentos que a gente tende a sempre ignorar porque “vão passar de qualquer forma”. Só é muito difícil saber quando, e o que diabos se faz até que isso aconteça?
i should talk to a friend, but i can’t get out of bed
my head is spinning and my stomach is sick
say i’m in love, so it’s hard to admit
- what’s wrong with me
Na história contada ao longo do álbum, o ponto de virada é justamente quando Olivia desiste de ignorar todas as dúvidas e de esperar até que elas sumam sozinhas — cá entre nós, elas provavelmente nunca iriam. Embora as temáticas não sejam das mais alegres, me deixa muito feliz pensar que eu, a Olivia e milhares de outras garotas ao redor do mundo inteiro possamos, por meio dessas músicas, chegar a uma mesma conclusão: é tudo parte de nós (ainda que a gente não goste muito disso de primeira).
Gosto de como a iconografia de the cure e do nome da turnê, The Unraveled Tour, brincam com a ideia de fios emaranhados e a aceitação dessa bagunça. No desenrolar do álbum, por mais que os fios não se desenrolem — pelo contrário, se embolam cada vez mais —, a noção importante que fica é a de que o fio nunca é cortado, nem quando o relacionamento acaba. Os fios que saem de Olivia — os seus sentimentos — não deixam de existir e tampouco são enterrados. Eles continuam lá, assim como os nossos continuam em nós. Nos resta apenas aprender a arrumá-los, amarrando ou desamarrando, sem deixar que eles prendam a nossa circulação. Here’s to hoping.









Não conhecia A cantora mas estou começando a gostar. Adorei o texto
fantástico!! 💐💐 amei o paralelos com mil e uma noites!!