Throw on your dress and put on your doll faces
Uma análise sobre a posição das mulheres na Lumon em Ruptura
A série “Ruptura”, da Apple TV, tem chamado muita atenção do público pela sua interessante abordagem da desumanização dos funcionários que passaram pelo processo de ruptura — e com um milhão de motivos para isso, porque a história brilhantemente explora todos os tópicos que pretende levantar. Ainda assim, no meio de tantas discussões e reflexões, sinto falta de um tópico específico: a forma como a desumanização mencionada acima afeta especificamente as mulheres na empresa.
Terminado o procedimento de ruptura, começa um processo que desumaniza o indivíduo ao privá-lo de suas memórias e, portanto, de seu senso de identidade e de sua autonomia. O caso de Helly R. é o mais interessante de ser analisado, visto que a sua autonomia é comprometida não só pela ruptura, mas também pela arbitrária decisão de Helena Eagan, sua externa, de tomar o seu lugar. Diferentemente de todos os outros funcionários do andar de ruptura, Helly e Helena — que só serão tratadas como pessoas diferentes nesse texto por questões didáticas, visto que são a mesma pessoa — têm uma relação uma com a outra. Relação essa que é difícil de ser definida, porque é formada por um emaranhado de ódio, inveja, incerteza e até vulnerabilidade. Mas as duas versões, de uma forma ou outra, caem no mesmo tabuleiro de um jogo comandado pela Lumon.
Helly diz, com as próprias palavras, que “Helena a veste de manhã como um bebê”, mas, ao meu ver, a situação é mais próxima de “Helena a veste de manhã como uma boneca”. Uma figura humana que a Lumon comanda e usa como “isca” para garantir o sucesso de projetos como o misterioso Cold Harbor. Helly, como interna, só é mantida no andar de ruptura porque o conselho entende que ela é necessária para manter outra pessoa — o Mark S. — lá. Para a empresa, o relacionamento dos dois é só mais uma coisa que eles podem distorcer e encaixar em seus próprios moldes, tudo em nome da realização de algo maior. Helly é objetivamente vista como um mero chamariz para atrair Mark ao trabalho. E é por isso que o relacionamento que os dois criaram lá dentro longe da supervisão do conselho é tão bonito e tão importante: eles encontraram algo no que acreditar além do trabalho monótono e misterioso, algo que realmente faça a vida de seus internos valer a pena. Mesmo que ninguém saiba do que aconteceu (ainda), a determinação de Helly em firmar o seu desejo de ter as próprias memórias — e não as de Mark ou da Helena — é uma mensagem para a Lumon: “Eu não sou só a sua boneca. Eu sou um ser humano com sentimentos, vontades e opiniões que me pertencem. Eu sou uma pessoa.”
E essa desumanização da qual falo não é restrita às internas, pois não se encaixa no mesmo caso de personagens como o Mark, o Irving e o Dylan, que ainda têm mais autonomia do que personagens como a Helly e a Gemma: eles têm a chance de irem embora e viverem as suas vidas como externos, por mais que não sejam vidas ideais, enquanto elas nunca se veem livres do controle e da supervisão da Lumon. Nem as mulheres em posições de poder são vistas em pé de igualdade. Helena Eagan, que é herdeira da empresa, é subjugada às escolhas do pai e do conselho. Ela não tem poder algum na decisão de voltar ao andar de ruptura após o retiro e acaba voltando contra a própria vontade, apenas porque eles precisam dela para que Mark continue trabalhando no arquivo Cold Harbor. E mesmo antes de tudo isso, Helena passou pelo processo de ruptura para tornar-se propaganda, provando que o procedimento é tão confiável que até uma Eagan passa por ele. Pelo que vimos no finale da primeira temporada, não seria exagero dizer que Jame Eagan, seu pai, não acredita nem um pouco na filha ou no potencial dela para comandar a empresa. Portanto, não é exagero afirmar que o patriarca acredita que “se sacrificar” em nome da empresa é a melhor coisa que Helena consegue fazer pela família. Para ele, ela não é uma pessoa capaz ou competente, só um rosto bonito para uma campanha que promove algo terrível.
E, como eu mencionei anteriormente, Helly e Helena não são pessoas diferentes. Embora elas não tenham acesso às memórias uma da outra, a bifurcação causada pela ruptura não cria uma barreira que separa o trauma de uma do trauma da outra. Você carrega a dor com você, mesmo sem saber de onde ela vem. Helena se vê superior em relação a Helly, mas, no fundo, ambas são tratadas como bonecas marionetes que a Lumon enfeita, controla e observa o tempo inteiro. O fato de que Helena se vê como a rainha no tabuleiro não faz com que ela deixe de ser uma peça no jogo de alguém.
A situação de Gemma, até agora, trouxe mais perguntas do que respostas, mas já mostrou o suficiente para servir como mais uma prova de que a Lumon vê as mulheres como suas bonecas, prontas para o trabalho que seus executivos nem sonham em fazer. Eles transformaram Gemma em uma versão distorcida e perturbadora de uma Barbie, que acorda todos os dias com uma roupa nova para vestir e uma nova função para exercer, mas, ao invés de ter um ótimo dia todos os dias, Gemma e suas várias internas têm múltiplos péssimos dias no período de um só.
A cada sala em que entra, Gemma é exposta a situações desconfortáveis que causam medo, desespero e trauma, muito provavelmente para estudar os sintomas em seu corpo em nome do desenvolvimento de alguma tecnologia de ruptura. É evidente que ela é uma cobaia de algum experimento muito importante para a Lumon, e isso a transforma em uma ferramenta que não tem escolha quanto a ser manuseada e explorada pela ciência. Por Kier. Mas o poder exercido sobre mulheres nunca tem uma linha que divide o que serve um propósito maior ou não e, portanto, é facilmente abusado. É o caso da cena do cômodo de Allentown, onde Gemma, no papel de uma esposa exemplar, é obrigada a escrever diversos cartões de agradecimento enquanto Dr. Mauer, responsável por supervisionar os experimentos, interpreta o seu marido. Apesar de não termos conhecimento do objetivo da pesquisa, seria ingênuo acreditar que todo esse cenário não é produto de uma fantasia do próprio doutor. Ele mesmo admite, em outra cena, que sabe que terá de abrir mão dela quando o projeto Cold Harbor for completado, deixando claro que a vê não só como parte de um experimento, mas como uma figura vulnerável que pode suprir a sua carência.
Dia após dia, Gemma é mantida em quartos fechados e forçada a abrir mão de tudo — de sua vida, de sua autonomia, de suas memórias e até de sua identidade — com a esperança de que poderá reencontrar o marido se seguir todas as regras. Ela sequer tem memórias das funções que é obrigada a exercer, e só tem alguma noção do que acontece por conta dos sintomas que permanecem depois. Tudo o que lhe resta, além de um corpo cansado e dolorido, é a expectativa de receber uma recompensa se ela se comportar, colocar os seus vestidos e ser a paciente, a aeromoça ou a esposa que eles querem que ela seja.
Se depender da Lumon, isso não vai acontecer. Gemma nunca vai voltar a sua vida normal. Helena nunca vai poder tomar as próprias decisões. Elas nunca terão a chance de experimentar, após tanto tempo, o que é ser a própria pessoa. Elas nunca terão para onde fugir. Afinal, o quão longe iria uma marionete sem ter quem a movimente?
Mas algo me diz que não depende. Não seria a primeira vez em que bonecas ganham vida e passam a andar com as próprias pernas — a Lumon só deveria tomar cuidado e lembrar como essas histórias geralmente acabam.


