Sessões & opiniões
Filmes que assisti recentemente e o que achei (sem spoilers)
O Drama
Charlie e Emma são um casal perfeito. Uma semana antes do casamento, em um jantar com amigos, decidem participar de um jogo em que devem compartilhar a pior coisa que já fizeram na vida — em teoria, seria uma ótima ideia para quem vai começar um novo capítulo e deseja deixar o passado para trás. A revelação de Emma, no entanto, cai como uma bomba e faz Charlie questionar se ele sequer conhece a mulher com quem vai se casar.
Não acho, de forma alguma, que o cinema tenha sempre a obrigação de educar ou moralizar, mas acho particularmente interessante que “O Drama” coloca a ética do público em xeque ao substituir a própria bússola moral por um grande “e se?”. E se isso acontecesse com você, o que você faria?
Não consegui deixar de pensar que “O Drama” é, de certa forma, o que “Depois da Caçada” gostaria de ter sido. A diferença fundamental é que, enquanto o primeiro suspende o julgamento óbvio para gerar uma discussão, o segundo só relativiza tanto a questão que ela se perde totalmente de vista — e chega perigosamente perto de virar munição para pessoas sem o menor bom senso.
Usar o cinema como ferramenta para provocação social não é passe livre para defender o indefensável, e acho que o charme do roteiro de Kristoffer Borgli é saber medir precisamente onde desenhar a linha que os personagens e os espectadores escolhem atravessar ou não. A experiência deve ser um tanto quanto sem graça para quem não se permite questionar os próprios valores, mas também não é flexível o suficiente para dar palco para quem não deveria — e eu valorizo muito o equilíbrio.
“O Drama” é uma ótima reflexão sobre a arbitrariedade das segundas chances e um dos meus filmes favoritos de 2026 até agora.
Devoradores de Estrelas
"A Terra está se tornando inabitável e precisamos salvar a humanidade” é uma das premissas mais reutilizadas de toda a ficção científica, mas “Devoradores de Estrelas” faz um ótimo trabalho em demonstrar que ela está longe de se esgotar. No longa, um micróbio extraterrestre está sugando a energia do Sol e Ryland Grace (interpretado pelo queridíssimo Ryan Gosling) é um professor de ciências do fundamental azarado o suficiente para se tornar o único encarregado de descobrir por quê, como e o que fazer para consertar as coisas.
Assim como na maioria dos meus filmes favoritos de ficção científica, em “Devoradores de Estrelas”, a complicadíssima ciência do universo é apenas plano de fundo para relações e emoções humanas que continuam sendo o centro de tudo mesmo quando atravessamos galáxias inteiras.
Existe algo muito brega, mas também muito cativante, em perceber que as verdadeiras viagens interestelares são os amigos que fazemos ao longo do caminho, e eu acho que nunca vou me cansar de assistir filmes que exploram a vastidão do universo apenas para mostrar a imensidão do que é humano.
A Chegada
Em “A Chegada”, naves alienígenas pousam em 12 diferentes pontos do planeta Terra sem motivo aparente. Em meio ao pânico generalizado, o governo americano recruta a linguista Louise Banks para decifrar a linguagem dos extraterrestres e entender o que eles querem com a humanidade.
Eu assisti “A Chegada” por motivos inteiramente acadêmicos e, surpreendentemente, gostei ainda mais do filme por isso. Como boa universitária que não foi parar na faculdade de Letras por um mero espirro, estou estudando para escrever uma matéria sobre relativismo linguístico — a grosso modo, a teoria de que a língua molda o pensamento — para um trabalho da faculdade, e não consegui escapar de milhões de menções a esse filme em todos os fóruns de discussão sobre a teoria.
Versões mais deterministas — que defendem a linguagem determina o pensamento a ponto de associar a capacidade cognitiva ao vocabulário de que o indivíduo dispõe — são amplamente descredibilizadas hoje em dia, e as tentativas de comprovação empírica não raramente acabam sendo só xenofóbicas. Na ficção, no entanto, o conceito pode ser explorado de forma muito mais interessante.
E é isso que tornou o filme ainda mais genial para mim: é de se admirar que o Denis Villeneuve tenha partido de uma teoria que vale cada vez menos para o seu próprio campo e tenha feito dela uma mina de ouro para uma história fictícia com sentimentos muito verdadeiros sobre a humanidade.
A risco de soar monotemática, repito apenas a síntese: eu amo a ficção de olhar para fora — fora até da nossa realidade — para refletir sobre o que temos aqui dentro.






Amei as estreias do cinema e suas opiniões sobre elas!! Também tenho muita vontade de assistir A Chegada, amei a relação que você fez com a linguística no texto e me identifiquei com a menção sobre o curso de letras, porque fiz um semestre dele antes de passar pra jornalismo — e perceber que não tinha outra opção de carreira pra mim — mas ainda sim, introdução a linguística continua sendo uma das minhas disciplinas favoritas da faculdade (e uma das melhores) e tenho vontade de ter um pouco mais de contato com a área no futuro. Amo seus textos continue escrevendo e compartilhando eles sempre!!!!!