Romeu & Julieta & Monstros
Finais Violentos, de Chloe Gong
“War rages on, and the city tells the tale of Roma and Juliette like some folk song passed between rickshaw runners on their breaks. They speak of Roma Montagov and Juliette Cai as the ones who dared to dream.”
Ultrapassar “Romeu + Julieta (1996)” como releitura do memorável clássico de Shakespeare é praticamente impossível, mas a duologia “These Violent Delights” chega bem perto. No cenário frenético de uma Shanghai dominada por gangsters nos anos 20, somos introduzidos aos herdeiros de gangues rivais e ex-namorados Juliette Cai, vingativa jovem de 18 anos em sua era Reputation, e Roma Montagov, jovem centrado e racional que busca, acima de tudo, a aprovação de sua família. A história em si começa quando uma loucura epidêmica atinge a cidade sem distinguir Escarlates de Rosas Brancas, levando gangsters, políticos, comerciantes e trabalhadores à óbito de forma misteriosa. Apesar das muitas desavenças e do ódio acumulado por anos, os dois deixam as tragédias de seu passado de lado para tentar salvar a cidade que eles chamam de lar.
Ao longo dos dois livros (“These Violent Delights” e “Our Violent Ends”), Chloe Gong demonstra toda a sua criatividade e todo o seu brilhantismo como contadora de histórias e como escritora, transformando a linda história de Romeu e Julieta em algo igualmente encantador e assustador. Além da fantasia, a história também é muito sobre os grupos políticos que mantêm o povo de Shanghai preso em cordas de marionetes, puxando fios quando lhes é conveniente alimentar a rivalidade entre os partidos. Com a junção entre a fantasia, a política e a escrita excepcional da autora, a duologia se torna uma leitura rica e proveitosa para todos os fãs de uma boa fantasia.
Entretanto, pelo menos na minha opinião, essa não é nem a melhor parte: a verdadeira cereja do bolo aqui são os personagens. Todos eles (todos mesmo, a Chloe não deixou nenhum filho ser esquecido) são cuidadosamente desenvolvidos durante a trama, enfrentando os próprios demônios e superando os próprios medos. Apesar do desenvolvimento dos personagens ser pessoal, as relações de irmandade, amor e parceria entre eles se provam mais importantes do que nunca durante o processo. O maior dos exemplos disso é que os protagonistas não teriam chegado a lugar nenhum se Juliette não tivesse suas primas, Rosalind e Kathleen, e se Roma não tivesse os seus braços-direitos, Benedikt e Marshall. Ao final da história, o que mais importa é a verdadeira família que eles encontraram no caminho.
Todos nós conhecemos Shakespeare bem o suficiente pra saber que nem todo final é feliz, mas estamos falando de Chloe Gong, então podemos dizer que nem todo final é miséria também. Na verdade, o final da duologia nem é um final de verdade: a autora já possui uma duologia spin-off e um livro de contos a caminho, e eu mal posso esperar pra ler todo o resto da saga!



