Pais, filhos e o que o cinema tem a dizer sobre o assunto
Uma vez faz um acontecimento, duas fazem uma coincidência, três formam um padrão e quatro já começam a indicar algo fora do normal. Mas como podemos chamar o fato de que dez dos filmes mais comentados de um mesmo ano falam do mesmo assunto?
Foi isso que aconteceu em 2025 com histórias sobre pais, filhos e tudo o que pode existir entre os dois ao longo da vida. E dez pode nem ser o total, é só a quantidade de filmes dos quais eu me lembrei depois de conversar sobre o assunto com a minha amiga Alice (um beijo, Alice, obrigada pela ideia de texto!) enquanto saíamos de uma sessão dupla de Valor Sentimental + Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria. Eu provavelmente ainda vou lembrar de outros depois de publicar esse texto, mas aí será tarde demais.
Sorry, Baby, de Eva Victor, mostra o desconforto de se colocar diante de uma nova vida e vê-la como um espelho das nossas. Se formos flexíveis com as regras do que se encaixa em paternidade, Frankenstein é a mais clássica das histórias sobre o que há de mais absurdo em gerar e manter uma vida.
Quarteto Fantástico: Primeiros Passos é literal em colocar prós e contras de um filho numa balança — com riscos e ameaças que sequer existem no mundo real, mas ainda assim. Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria e Morra, Amor abordam o quão árduo é ser quem se é e tudo o que precisam que uma mãe seja ao mesmo tempo.
Em O Esquema Fenício, pai e filha atravessam o mundo para redescobrir o que é ser uma família. Em Uma Batalha Após a Outra, o protagonista cria a sua filha em meio a uma revolução e faz disso uma revolução em si.
Jay Kelly retrata a solidão de um pai cuja carreira abala a relação que ele tem com as filhas, enquanto Valor Sentimental aborda a possibilidade — difícil, mas tangível — de reconstruir uma relação perdida e Hamnet, por fim, confronta o desafio de uma perda irreparável para um pai ou mãe.
Eu não tenho filhos e não poderia estar mais longe de pensar nisso no momento, então é verdade que eu talvez não seja a pessoa com a perspectiva mais interessante do tópico. Ainda assim, acho que a guinada das histórias sobre maternidade e paternidade no cinema merece um pouco de atenção.
Parando para pensar, dois dos filmes mais queridos pelos cinéfilos já falam sobre pais e filhos. Em Aftersun e Lady Bird, no entanto, o foco da história tende um bocado para o amadurecimento e o consequente reconhecimento de que as vidas de nossos pais vão além dos papéis de “pai” ou “mãe” que eles interpretam nas nossas.
Nos filmes de 2025 que mencionei acima, a história vai um pouco na contramão e apresenta personagens que não existem apenas por — e nem para — si mesmos, mas em relação ao outro.
Essa afirmação pode ser verdadeira para qualquer personagem ou qualquer um de nós, é claro, mas é um pouco mais verdadeira quando falamos de pais e mães, seja nas telonas ou na vida real, e parece que é sobre isso que o cinema quer falar no momento.
Em um texto interessantíssimo para a newsletter da publicação, o editor-chefe de críticas da IndieWire escreveu:
“Essa é uma ótima época para ser pai ou mãe. Na verdade, permita-me esclarecer: essa é uma época profundamente terrível para ser pai ou mãe em quase todos os níveis imagináveis (o que talvez explique porque cada vez menos americanos estão escolhendo ter filhos), mas [...] é uma ótima época para ser um pai ou mãe que assiste a muitos novos filmes, porque de repente parece que a maioria dos filmes realmente bons são sobre nós.”
É interessante pensar que a indústria cinematográfica esteja falando tanto sobre parentalidade em um momento em que as pessoas não só não estão tendo filhos, como também não querem ter.
E é igualmente interessante pensar que, mesmo nesse momento, a maioria dos filmes não se compromete a mostrar o caráter bonito e transformante da coisa, mas também não tem pretensão alguma de disseminar contos de advertência. São apenas histórias como são — ou como podem vir a ser.
Ainda na newsletter da IndieWire, David Ehrlich aponta um possível motivo, absolutamente banal, para essa guinada: diretores e roteiristas ativos estão tendo e criando filhos, e essa experiência é transformadora o suficiente para motivar mil e uma histórias.
A teoria bate com uma fala do diretor Josh Safdie, que se tornou pai durante a produção de Marty Supreme. Eu não achei que o filme cabia na lista por mil e um motivos, mas Safdie ainda diz bastante:
“O sentimento de quando eu conheci a minha primeira filha foi cósmico. Todos nascemos, e você se lembra de alguma maneira eterna sobre o seu próprio começo. Mas algo muito mais poderoso é que você é lembrado de que não é sobre você. Agora é sobre o seu futuro e algo que vai sobreviver a você, mas também é sobre todos nós.”
Como costuma acontecer com a sétima arte, o comum se torna bem maior e mais importante colocado nas palavras de um roteirista e passando pelas lentes de uma câmera.
E isso é (literalmente) multiplicado quando dez filmes diferentes destacam um mesmo fragmento do ordinário em um curto período de tempo, mas, no fundo, falar sobre pais e mães não é nada fora do normal e nem nos faz especular motivações de força maior para a história — a gente só entende. Nem sempre no mesmo nível e provavelmente nunca da mesma forma, mas a gente entende.
A resposta para o baby boom das telonas não é tão explosiva quanto parece: pode ser que o público só esteja procurando narrativas que pertençam um pouco a todo mundo. Mesmo que não sejamos todos pais ou mães, somos todos filhos de alguém, dando sequência a velhos ciclos que sequer reconhecemos e criando novos que não existiam antes de nós.
E com um futuro tão incerto quanto o nosso é atualmente, é mais do que razoável olhar para as gerações seguintes às nossas e pensar no que corre risco de se perder, no que pode mudar e em tudo aquilo que, contra todas as chances, permanecerá igual.
O diagnóstico que o cinema tem nos dado dessa situação não é conclusivo. Da angústia de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria à inevitável esperança de Uma Batalha Após A Outra, é difícil mensurar os altos e baixos que esperam atrás da porta da parentalidade. Mas se esses filmes têm alguma certeza a oferecer, até mesmo em Hamnet, é a seguinte: há muito mais para além de você.








bravo! lindo, gio!
que texto incrível!!! me fez pensar em muitas questões, parabéns.