O narrador continua contando histórias
Devaneios pós-finale de Stranger Things
AVISO: ESSE TEXTO CONTÉM SPOILERS DO FINALE
Enquanto fogos de artifício estouravam no céu e milhões de pessoas brindavam taças de champanhe, executivos da Netflix provavelmente passaram a virada para 2026 apavorados pelo futuro de suas contas bancárias: Stranger Things, a maior série do streaming durante quase dez anos, chegou ao fim.
Entretanto, o épico final, tão aguardado pelos fãs, me pareceu um pouco de tudo… mas não tão épico assim. Não se enganem: o episódio mexeu bem comigo e é certamente emotivo para quem cresceu com a série (🙋♀️ ), mas ele ainda me deixou com um gosto bem mais agridoce do que eu gostaria.
Eu não aceito o final da Eleven. Eu admito que paguei com a língua depois de meses dizendo que os Duffers jamais teriam coragem de matar um personagem principal, mas acho que eles exageraram um pouco na hora de provar que eu estava errada. É muito cruel matar a sua personagem principal depois de tantas temporadas construindo uma narrativa na qual ela aprende, pouco a pouco, que merece uma vida tranquila tanto quanto qualquer um.
E não adianta dizer que ela estava se sacrificando pelo resto do grupo, porque os motivos que a levaram a ficar para trás não tem nada a ver com nenhum deles. É igualmente inútil tentar me convencer de que o governo americano acabaria levando a Eleven para o laboratório de novo se ela voltasse para casa, porque essa menina passou quase um ano inteiro escondida em um chalé e nada aconteceu com ela. Se os Duffers quisessem dar um final feliz para a Eleven, eles teriam dado um final feliz para a Eleven — se o Will mágica e convenientemente deixou de estar ligado ao Vecna logo antes do vilão ser decapitado, a Eleven também poderia convenientemente ter acabado em um chalé no meio do nada com o Mike.
E o que piora essa situação, para mim, é a mensagem que ela passa sendo o final da série. Se é que isso faz sentido para alguém além de mim (eu espero que faça), eu sempre vi Stranger Things como uma narrativa inevitavelmente otimista no final das contas: apesar de tudo o que os personagens enfrentam, eles nunca deixam de ter uns aos outros. Apesar de falar sobre monstros e outras dimensões, a série sempre foi, antes de qualquer outra coisa, sobre a importância da amizade entre o grupo principal. De forma metaforicamente brega, é tudo sobre os amigos que fazemos ao longo do caminho: é isso que faz os personagens continuarem lutando desde o primeiro episódio.
Vendo a série dessa forma, a decisão de terminar a história com a Eleven escolhendo a morte ao invés da chance de um recomeço ao lado dos amigos e da família me parece bem contraditória. Foi para isso que ela passou cinco temporadas lutando pelas pessoas que ela ama e tendo essas pessoas que a amam de volta lutando por ela? Os roteiristas realmente olharam para a personagem que só conhece o sofrimento desde o dia em que nasceu e decidiram dar um final com ainda mais sofrimento para ela?
E que fique registrado aqui que não, eu não acho que ela tenha sobrevivido — e mesmo que achasse, um final em que a Eleven está isolada de todo mundo que já foi importante para ela também não me parece muito melhor. Eu acredito que essa é a história que o Mike criou para lidar com o luto, e tudo bem ser assim. Por mais que eu tenha odiado o final, admito que o destino do Mike como o narrador que continua contando histórias com uma foto de sua amada ao lado da máquina de escrever é tragicamente bonito para mim. O meu menino basicamente virou o Lemony Snicket.
Por outro lado, o final do Mike, assim como o da Eleven, não precisava ser tão miserável assim. É óbvio que os Duffers não tinham a obrigação de terminar a série como um conto de fadas, não é assim que as coisas funcionam. Mas como pode todos os personagens terem conseguido os seus “felizes para sempre”, exceto o Mike e a El? Eu entenderia a decisão se todos os outros fins fossem perfeitamente consistentes e realistas, mas não é o caso. Por algum motivo além da minha compreensão, os Duffers decidiram que só o Mike e a Eleven mereciam finais trágicos e realistas. Não aceito e nunca aceitarei. Não adianta.
Em outra nota, quanto a outros encerramentos, tenho que dizer que gostei bastante do arco do Vecna. De verdade. O meu maior medo durante a temporada era um arco de redenção para o Henry, então vocês podem imaginar o quanto eu estava suando frio enquanto o Will chorava e afirmava que o Henry era uma vítima. No entanto, fiquei positivamente surpreendida pelo fato de que o passado traumático do Henry foi narrado não para justificar o que ele fez, mas para mostrar que ele só sempre foi uma pessoa horrível, mesmo antes de se tornar um monstro.
Embora eu tenha as minhas questões com o plot do Vecna ter aparecido tão tarde na série (tenho certeza de que os Duffers só tiveram essa ideia escrevendo a quarta temporada, mas não posso provar), guardo todas elas para dizer que o finale o consolidou como um bom arco de vilão para mim. Conhecemos o personagem, entendemos os seus motivos, e ainda assim não justificamos o que ele fez — isso talvez deveria ser o mínimo, mas estamos em uma crise narrativa e eu aceito qualquer migalha de bom grado.
Quanto aos demais personagens, genuinamente gostei de como eles acabaram se saindo depois de todo o caos. Ainda fico um pouco amargurada por não poder dizer o mesmo sobre a protagonista e o meu personagem favorito, é verdade, mas eu fiquei bem feliz. A cena dos adolescentes mais velhos no terraço colocou o dedo em uma ferida que eles não tinham o menor direito de tocar, mas foi linda, e o discurso do Dustin na formatura é um final hilariamente apropriado para esse capítulo da vida dos personagens.
A última cena ser uma partida de D&D era um final previsível, sabemos disso, mas eu defendo que foi o melhor final que poderiam ter dado para a série. É bem apropriado terminar a narrativa do jeitinho que ela começou, com adolescentes em um porão procurando em um manual de jogo todas as respostas que eles não têm — outrora sobre mágicos e outras dimensões, agora sobre o futuro que os aguarda lá fora. Quando os personagens guardam os seus cadernos e sobem as escadas, o que se transmite é o que vai ficar com quem acompanha a série desde o início, mais do que qualquer outra decisão do roteiro: que sorte a nossa de termos crescido juntos aqui.






