O Esquema Fenício
Zsa-zsa Korda (Benicio Del Toro) é um dos homens mais ricos da Europa, e o número de ameaças à sua vida parece querer acompanhar a quantidade de zeros em sua conta bancária. Mas é apenas depois de sobreviver a seu sexto acidente aéreo que o magnata finalmente percebe que pode não sobreviver a um sétimo, e, com isso, decide nomear um herdeiro entre os seus dez filhos. A escolhida é Liesl (Mia Threapleton), uma noviça com quem ele não fala há anos e que condena todos os seus hábitos de negócios. Quando o plano final de Korda – o Korda Land and Sea Phoenician Infrasctructure Scheme – é comprometido pela manipulação do mercado, deixando uma lacuna no orçamento, o bilionário, acompanhado de sua nova herdeira, embarca em uma viagem pelo globo para convencer os seus parceiros a assinarem um novo contrato.
A tripulação é completada por Bjorn (Michael Cera), um tutor contratado por Zsa-zsa que se vê repentinamente promovido a assistente. A performance de Michael Cera é, sem dúvidas, o maior destaque do filme. O elenco, assim como o de todos os longas (e curtas) de Wes Anderson, é formado por nomes de peso que entregam tudo o que prometem, mas existe algo muito especial no encontro entre Cera e Anderson. Estava escrito nas estrelas: o diretor mais extravagantemente peculiar que você conhece acabou de encontrar a musa (o muso?) mais peculiarmente extravagante que poderia encontrar na indústria. Bjorn é hilário, divertido e perfeitamente wes-andersoniano. Michael Cera nasceu para isso, e nos trouxe uma performance ainda mais perfeita do que o esperado.
No que diz respeito à narrativa, por um lado, Wes Anderson se encontra um campo muito familiar: os laços de sangue são retratados pelo diretor com maestria pela mesma lente sensível e agridoce anteriormente usada em “Os Excêntricos Tenenbaums” e “Viagem a Darjeeling”. Por outro, ele está visitando um território pouco explorado antes: o dos filmes de ação e thrillers de espionagem. Embora os seus filmes anteriores já tenham incorporado diversas técnicas próprias desses gêneros, “O Esquema Fenício” amplifica todos esses usos apresentando os minutos iniciais mais frenéticos e surpreendentes da filmografia do diretor – tudo isso, obviamente, de forma milimetricamente simétrica e em cores vibrantes.
É desnecessário comentar o estilo de Wes Anderson: como tanto julgo quem sempre escreve a mesma crítica negativa sobre ele, não serei eu quem vai escrever a mesma crítica positiva, o defendendo dos mesmos argumentos reciclados, pela milésima vez. Mas gostaria de terminar essa resenha citando um trecho da crítica escrita por Guilherme Jacobs para a Omelete, e mais especificamente com uma frase que ficou comigo desde que a li:
Os filmes de Wes Anderson bolam um grande vai-e-vem cinematográfico que, por trás de todas as artimanhas e engenhocas, buscam preparar um momento perfeito, onde a linguagem bressoniana das atuações abre espaço para o mais naturalista e as engrenagens pausam para que os personagens expressem seus mais íntimos sentimentos. Pense no discurso de Jeffrey Wright em A Crônica Francesa, no encontro com Margot Robbie em Asteroid City ou em quando o Zero de F. Murray Abraham finalmente conta porque comprou o estabelecimento que dá nome a O Grande Hotel Budapeste. Todo o estilo existe em nome de uma substância.
Os meticulosos cenários não seriam nada sem as histórias que tomam lugar neles. A simetria não existiria sem os personagens – complexos, confusos e amáveis – que a formam. Nada é por acaso e muito menos só pela aparência. Todo o estilo existe em nome de uma substância. E que sorte a nossa de poder conhecê-la ao vivo, em cores vibrantes e nas telonas.
“O Esquema Fenício” está em cartaz nos cinemas brasileiros desde o dia 29 de maio.




