O BookTok está criando uma enorme geração de novos leitores – infelizmente, todos eles odeiam ler
Começo esse texto já deixando claro que não pretendo escrever um artigo ou qualquer outro gênero argumentativo: vou só compartilhar um pouquinho da minha opinião, quiçá fazer um desabafo.
Eu faço parte de comunidades de leitores na Internet desde 2018. Na época, o BookTok sequer era uma coisa, mas eu e várias outras pessoas tínhamos perfis no Instagram para comentar as nossas leituras, escrever resenhas e recomendar livros. E tínhamos algo muito particular em comum: nós genuinamente amávamos livros. No geral. Mesmo quando eles não faziam sucesso, e mesmo antes da pandemia fazer da leitura um hobby de “pessoas legais que sabem aproveitar o próprio tempo”.
A risco de soar levemente pretensiosa, afirmo que a pandemia mudou muito a comunidade de leitura nas redes sociais, e não necessariamente para o melhor. Não pelo evento em si, mas porque foi nesse período que o BookTok surgiu. Entediadas e trancadas dentro de casa, muitas pessoas descobriram que ler livros é, na verdade, muito divertido – além de ser um hobby que pode agregar na sua vida e, portanto, faz bom uso do seu tempo. Bingo. Como é de se esperar, aqueles que começaram a desenvolver o hábito da leitura começaram por gêneros relativamente menos complexos, em maioria romances água com açúcar. E é óbvio que não há absolutamente nada de errado em ler romances. Mas a coisa toda virou uma bola de neve que, atualmente, cai como uma avalanche em todo o progresso pró-leitura que fizemos nos últimos anos.
A alta do hábito da leitura trouxe, para as pessoas que o adotaram, uma confiança (tirada sabe-se lá de onde) de que o ato da leitura por si só instantaneamente torna quem o pratica mais inteligente, mais culto, independentemente da obra que está sendo consumida. E isso não é verdade. Nem todo livro te ensina ou te faz pensar. Alguns só servem para divertir mesmo – foram criados para isso e servem o seu propósito maravilhosamente, mas não desenvolvem o seu pensamento crítico. Quando esse argumento chega aos ouvidos do BookTok, a resposta sempre é a mesma: “é elitista afirmar que certas leituras têm mais valor do que outras”. Mas não é elitismo nenhum afirmar que diferentes livros têm, sim, diferentes níveis de prestígio, públicos e propósitos – e está tudo certo. Livro nenhum tem a obrigação de te tornar um intelectual, mas você tem o dever de distinguir aqueles que o fazem dos que não têm essa função.
E não só distinguir, mas também reconhecer que a literatura é infinitamente extensa e variada – você pode até não gostar de livros do século XIX e não entender bulhufas dos textos de Saramago, desde que reconheça os desgostos e dificuldades como coisas suas. Porque elas são. Se você não entende Machado de Assis, é fácil eximir-se da culpa e dizer que o bruxo escreve de forma complexa demais de propósito. O difícil é entender que a experiência da leitura é individualmente construída a partir da sua bagagem, e, a partir daí, decidir se você quer expandi-la ou só seguir com a sua vida e seus livros de preferência – até porque ninguém pode te forçar a aprender a ler livros mais complexos. (Perceba que culpar o autor e defender que o livro “lhe exige demais” não é uma das opções plausíveis nesse cenário.)
O problema em questão está na recusa dos novos leitores a entender que os livros que eles consomem não são os únicos no mundo que merecem o seu tempo e os seus neurônios. Ler apenas romances por gosto pessoal não torna um leitor pior do que outro, mas ter toda uma comunidade que considera vocabulários que não tenham sido retirados da Internet “complexos demais” diz muito sobre o tipo de leitor que está se criando.
Nós somos a geração que mais tem acesso a todo tipo de conhecimento que se queira absorver e, ao mesmo tempo, a geração que menos tem interesse em fazer uso dessa dádiva. A criação de um perfil de leitor que consome obras e mais obras de fácil compreensão para “criar o bom hábito da leitura” têm feito com que as publicações recentes tenham se tornado cada vez mais simplificadas, e qualquer livro que saia desse padrão, mesmo tendo complexidade perfeitamente mediana, nem sequer desperta o interesse. Obras escritas em outros séculos, então, são encaradas com completa aversão, como se fossem de outro planeta. Enquanto isso, as estantes das livrarias estão repletas de best sellers que nem sequer têm algo a dizer, muito menos a ensinar para o seu público: ao invés disso, eles só treinam os leitores a lerem cada vez mais e quererem aprender cada vez menos.
E é aí que a coisa piora. Fica triste, até. É inegável que o esforço para disseminar o hábito da leitura, principalmente entre jovens, finalmente está mostrando resultado. As pessoas gostam mais de ler agora – desde que o livro tenha romance, muitos diálogos e poucas páginas. Também não devem ter, em nenhuma hipótese, palavras que não conhecem, personagens complexos ou qualquer linha de raciocínio profunda, porque aí já é demais. Com tantos critérios que excluem tantas obras, será que essas pessoas gostam de livros mesmo?


