Marty Supreme
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Marty Supreme não é — graças a Deus — uma biografia baseada inteiramente em fatos reais. Ainda assim, se aproxima o suficiente de uma para se destacar de todas as outras que assistimos nos últimos anos: frenético e caótico, o longa foca em tudo aquilo que uma pessoa gostaria de esconder e cativa o espectador domando a sua ansiedade. Durante as 2h e 30min de filme, o público está à mercê dos altos e baixos da vida de Marty Mauser como em uma montanha-russa que pode sair dos trilhos a qualquer momento.
A história acompanha um mesa-tenista, interpretado por Timothée Chalamet, em busca do título de melhor jogador do mundo dentro de um esporte pouquíssimo valorizado na Nova Iorque dos anos 50. Os seus familiares e conhecidos entendem a sua ambição como um sonho bobo, mas Marty acredita em si mesmo o suficiente para contrabalançar a falta de fé de uma nação inteira. Sem qualquer estabilidade, o atleta parece não ver, nem mesmo na lei, limites para conquistar o que quer.
No entanto, com uma direção precisa e performances sensacionais, o filme ultrapassa — e por muito — a questão do esporte. Marty Supreme é, acima de tudo, uma história sobre sonhos enormes, a obstinação que os acompanha e tudo o que fica pelo caminho na jornada até o sucesso. No caso de Mauser, todas essas questões são levadas ao cúmulo do absurdo, mas não chegam longe o suficiente para se tornarem irreconhecíveis para nós.
O roteiro trabalha as decisões do protagonista em uma linha tênue entre aquilo que tende ao megalomaníaco e aquilo que é familiar, construindo uma relação entre o público e o personagem que costuma ser uma das minhas coisas favoritas sobre o cinema quando ela dá certo: você não só entende o Marty, mas sente tudo o que ele sente também, do desespero ao triunfo.
Marty Mauser não é exemplar, mas é certamente elétrico, e traz para Hollywood uma energia que nos lembra do quão potentes sonhos e ambições podem ser — e positivamente potentes, se você tomar decisões melhores do que o protagonista.
Mais do que isso, somos lembrados do quão potentes filmes podem ser. A campanha de Marty Supreme nos diz para sonhar alto, e a sua história coloca isso na prática não só quando leva Marty a conquistar o que quer, mas também quando proporciona uma experiência arrebatadora nos cinemas (principalmente em tempos de streaming).
No mais, parece injusto elogiar a construção de “momentos de tensão” quando a narrativa inteira é tão ansiosa e estressante que parece estar sendo segurada por um punho firme a todo momento, mas é impossível não reconhecer o quão bem ritmado o filme é, realmente prendendo o espectador do início ao fim.
O destaque da obra é, sem dúvida alguma, a performance de Timothée Chalamet. A dedicação do ator ao papel é um espelho, igualmente irônico e autoconsciente, da devoção do personagem ao seu sonho. Chalamet foi escalado no filme em 2018, passou cerca de sete anos treinando tênis de mesa para as gravações e, só no ano passado, representou, sozinho, uma das campanhas de marketing mais megalomaníacas de Hollywood nos últimos anos.
Embora tenha sido fortemente criticado na Internet por parecer orgulhoso e arrogante promovendo o filme, qualquer um que o tenha assistido há de concordar que o comportamento tem motivo — ou melhor, motivos. O primeiro deles é que a autoconfiança que beira o insuportável é um dos principais traços de Marty Mauser, e certamente faz sentido se usar disso para chamar atenção para o filme. Mas esse é um motivo um pouco entediante.
A questão que Marty Supreme deixa muito evidente é que Chalamet é exatamente quem pensa que é. De toda a sua geração de atores, ele é o único que sequer chega perto do título de estrela do cinema, e não sem mérito. Para alguém que acabou de completar 30 anos e só tem pouco mais de uma década de carreira, a sua filmografia realmente o equipara ao talento de algumas das maiores estrelas que conhecemos.

Além disso, Timothée é genuinamente bom em ser uma figura pública. É muito difícil se tornar uma estrela só fazendo filmes e voltando para casa: você precisa ser lembrado, e o ator tem mostrado que sabe muito bem como fazê-lo, principalmente com a geração Z.
A campanha de marketing de Marty Supreme fez do filme um fenômeno cultural, o colocando no imaginário do público antes mesmo dele chegar nos cinemas, usando desde zepelins laranja neon até a famosa esfera de Las Vegas, e isso sem contar com a minha parte favorita da campanha: uma falsa e deliciosamente hilária chamada no Zoom em que Chalamet passa 20 minutos apresentando ideias absurdas para uma equipe de marketing responsável por promover o filme.
Tudo é calculado para ser grandioso, assim como a marca que o artista pretende deixar, e ele corresponde às expectativas que cria: em Marty Supreme, Timothée está em foco na grande maioria das cenas, e carrega cada uma delas. As entregas de fala, ações e reações são perfeitamente calculadas e arrancam do público exatamente o que pretendem, sem nunca falhar. A precisão de Chalamet é tamanha que pode ser comparada apenas àquela que será necessária para gravar o seu nome na estatueta de Melhor Ator.
Mas o resultado, é claro, não é só um esforço individual. A direção e o roteiro são impecáveis, e o resto do elenco também não deixa nada a desejar. A performance de Odessa A’Zion, inclusive, merece um destaque especial — ela é incrível como Rachel, e eu espero que o papel abra muitas portas para ela.
No todo, Marty Supreme é um projeto que leva o espectador como acompanhante na jornada maravilhosamente frenética e obstinada de seu protagonista, e termina o trazendo de volta ao cinema ao mesmo tempo em que traz Marty de volta ao mundo real, com um needle drop que não poderia traduzir a experiência de forma mais fantástica nem se quisesse: bem-vindo a sua vida, não há volta.








