Mal ditos
Em homenagem ao Dia Mundial do Livro, um ensaio que escrevi a partir do meu livro favorito
Nota da autora: Escrevi esse ensaio há uns cinco meses como trabalho final de “Não-ficção Criativa” — uma das minhas disciplinas favoritas da faculdade até agora — e nunca soube bem onde colocá-lo. Aproveitando o gancho do Dia Mundial do Livro (23 de abril) e o fato de que todo o texto é inspirado em Babel, o meu livro favorito da vida, decidi trazê-lo para cá com algumas alterações feitas depois da entrega. Particularmente gosto um bocado desse ensaio, então fico feliz de levá-lo para algum lugar além do Google Classroom :)
“Nunca tocaremos o céu desse plano mortal, mas a nossa confusão não é infinita. Podemos, por meio do aperfeiçoamento da arte da tradução, alcançar o que a humanidade perdeu em Babel. [...] Mágica. O que estamos fazendo é mágica. Nem sempre a sensação vai ser essa; na verdade, quando estiverem fazendo o exercício desta noite, vai ser mais como se estivessem dobrando roupas do que perseguindo o efêmero. Mas nunca se esqueçam da audácia do que estão tentando fazer. Nunca se esqueçam de que estão desafiando uma maldição lançada por Deus.” — Babel, R.F. Kuang
O livro Babel, de R. F. Kuang, é uma fantasia que explora as relações entre a linguagem, o poder e o colonialismo a partir das vidas de tradutores do Real Instituto de Tradução da Universidade de Oxford — todos imigrantes levados à Inglaterra para servirem ao instituto. No universo fantasioso da obra, barras de prata “encantadas” que manifestam as nuances perdidas na tradução são amplamente usadas pelo império britânico em sua dominação colonialista, e os tradutores de Oxford são treinados justamente para dominar essa magia. Em um exemplo simples, acoplada a uma carruagem, uma barra com a palavra inglesa “speed” de um lado e a palavra em latim “spes”, associada à esperança, do outro, faz com que o veículo ande mais rápido. A magia, no entanto, não é infalível, pois depende inteiramente de uma das coisas mais voláteis — e possivelmente traiçoeiras — que conhecemos: a comunicação.
Toda comunicação é um ato de fé. É um ato de confiar em si para dizer, no outro para ouvir e, talvez, nos astros para ser entendido. Nada no mundo garante o sucesso da comunicação, mas ainda assim mantemos uma confiança cega e incansável nas tentativas de alcançar o outro com as palavras. E não poderia ser diferente, porque poucas ideias seriam tão insuportáveis para o ser humano quanto a da impossibilidade da comunicação. Mesmo quando somos amaldiçoados com a confusão, desafiamos até Deus em busca do entendimento. É por isso, por exemplo, que pensamos na tradução de diferentes idiomas: a possibilidade de uma barreira intransponível na comunicação é abominável, então criamos artifícios para atravessá-la. O esforço, no entanto, não raramente é em vão — os melhores dos nossos resultados não fazem mais do que espiar o outro lado do muro.
A tradução, de fato, transpõe barreiras linguísticas, geográficas e até culturais. Carrega até Pretória as novidades de Washington, traz os últimos assuntos de Paris ao Rio de Janeiro, e depois, se assim for necessário, os leva até Hong-Kong. Mas nunca sem deixar algo pelo caminho. Graças à tradução, as opiniões de um homem de Berlim podem chegar aos ouvidos de um espanhol de forma perfeitamente compreensível, mas nunca da forma como foram ditas pelo alemão. Traduzir implica levar uma informação a um receptor que não foi contemplado em sua enunciação, a olhos e ouvidos não pretendidos. Para ser compreendido, o significado sempre precisa ser distorcido de alguma forma. Essa distorção compromete a fidelidade ao original — e mesmo quando consegue ser fiel ao original, o resultado raramente é fiel a quem o disse ou escreveu.
O sonho dourado da tradução é promover uma comunicação intacta através do tempo e do espaço. O tradutor, numa espécie de constante perseguição da compreensão promovida pela língua adâmica — sem qualquer pretensão de trazê-la de volta, pois isso o tornaria obsoleto —, opera a base de equivalências, mas a sua maior fantasia seria conseguir trabalhar apenas com semelhanças. Que sonho seria não fazer nada além de buscar, até encontrar, os pares perfeitos, feitos para se unirem e completarem a jornada começada pelo outro, isto é, carregarem o significado através da barreira da linguagem. Uma tradução perfeita, nesse sentido, seria menos um feito do tradutor e mais um achado. Uma gloriosa descoberta de uma correlação já existente.
No sentido do que realmente acontece, assim como as próprias línguas tiveram de ser inventadas em algum ponto, as correlações entre elas também foram fruto de criação — e não de criação recente. A primeira tradução literária conhecida é a da Odisseia, do grego para o latim, no século III a.C. A partir da leitura de seus versos que foram preservados, conclui-se que a tradução, além de adaptar a epopeia de uma língua para outra, a adaptou de uma cultura para outra. O poema de Homero começa com a invocação à Musa, divindade grega associada à inspiração das artes (“Fala-me, Musa, do homem versátil que tanto vagueou”, na tradução de Frederico Lourenço). A versão em latim, por sua vez, convenientemente menciona a figura da Camena, ninfa das águas de Vênus na mitologia romana, no lugar da Musa.
Levando em conta que tal tradução tinha um propósito didático (Lívio Andrônico, responsável por ela, era encarregado da educação bilíngue de jovens em Roma), pode-se dizer que a adaptação é bem-sucedida, mesmo que Homero jamais tenha escrito sobre as Camenas, porque o sentido geral de um apelo à divindade foi mantido — e provavelmente melhor compreendido pelos romanos, que são familiarizados com as Camenas, mas não com as Musas.
Daí a questão da equivalência: o apelo às ninfas das águas de Vênus pode estar para os romanos assim como o apelo às Musas está para os gregos, mas elas não são iguais. Não existe, nas duas culturas, um par perfeito de sentido, de figuras que representam a exata mesma coisa. E isso é verdadeiro quando falamos de algo grandioso como uma divindade, mas também é tão verdadeiro quanto quando falamos de palavras, expressões e até construções sintáticas: na maior parte dos casos, temos de nos contentar com equivalentes.
Sendo assim, o processo de tradução bem-sucedido, ou seja, totalmente compreensível, às vezes não demanda apenas levar o sentido de um lugar a outro, mas recriá-lo em outro contexto, e a recriação sempre é, de uma forma ou outra, uma violação do original. Percy Bysshe Shelley, em A defence of Poetry and Other Essays, diz (na tradução de Marina Vargas, como uma citação dentro da obra Babel: Ou a necessidade da violência): “Eis a vaidade da tradução: transportar de uma língua para outra criações de um poeta equivale a lançar violetas em um crisol para descobrir o princípio formal de sua cor e de seu odor. A planta deve brotar outra vez da semente, ou não dará flor. E esse é o fardo da maldição de Babel.”
O poeta representa bem o caráter efêmero do que se perde na tradução: uma vez recriado, um poema árabe, por exemplo, perde nuances que se tornam inalcançáveis no inglês. O reconhecimento dessa parte que falta costuma levar o indivíduo de volta ao original, e esse caminho costuma mostrá-lo um pedaço de significado que não pôde resistir à viagem. Não porque é propriamente “intraduzível” — enquanto existe a possibilidade de explicar-se usando mais do que as palavras equivalentes, nada realmente o é — ou porque o tradutor não fez um trabalho bom o suficiente, mas porque as línguas são construídas por muito mais do que correspondências entre lexemas, morfemas e sentidos. Elas são reflexos de mil e uma diferentes maneiras de ver e de se relacionar com o mundo, e talvez realmente seja ambicioso demais querer atravessar todas as barreiras entre elas sem qualquer custo. Afinal, não fomos amaldiçoados por motivo nenhum.
Frente a isso, reconhecemos que a tradução não passa de um artifício cujo objetivo nunca será plenamente atingido, e que ainda distorce, viola e trai o original na busca pelo inalcançável. Ela não é perfeita e nunca chegará perto disso. Mas isso não significa que abriremos mão dela: apesar de ser incompleta, ainda é muito necessária. Sem a tradução, continuamos presos nas ruínas de Babel. Com ela, não necessariamente iremos muito longe, é verdade, mas ao menos podemos tentar chegar em algum lugar.
E aqui, no fim das contas, talvez a mera tentativa valha mais do que o resultado. Certamente interessa muito mais, porque reflete a nossa insistente recusa em aceitar a confusão como destino. Diz muito sobre nós, como humanos, que preferimos acreditar no potencial de algo que sabemos ser impossível apenas para não aceitarmos que a compreensão que tanto almejamos está fora do nosso alcance. Nos é mais instintivo desafiar a vontade de Deus do que desistir da tentativa de comunicar-se com o outro.
E alguns de nós ainda levam isso mais longe: os tradutores compreendem, talvez melhor do que ninguém, a natureza contraditória e improvável do que fazem.
É um tanto quanto irônico, para não dizer cômico, que a tradução seja um paradoxo em si mesma: todo tradutor que se preze sabe que é ingênuo acreditar em uma tradução perfeita. É tolice, até porque toda tradução implica, de alguma forma, uma recriação. Não obstante, todo tradutor que se preze há de ser um tolo profissional e acreditar, até que caia o último homem, na recriação mais perfeita possível — caso contrário, é mais fácil largar a toalha e ocupar-se com ofícios mais objetivos. Só um tolo profissional consegue dedicar a vida ao impossível.



