Leituras dos últimos tempos
Escrever constantemente é mais difícil do que parece. Se mal consigo pensar em tópicos diferentes para um texto no Substack por semana, imagino o desespero dos cronistas que escreviam colunas diárias no jornal.
Mas eles eram sortudos, porque tinham o inesgotável artifício de escrever crônicas sobre crônicas quando se esgotavam os assuntos. Textos no Substack sobre textos no Substack, no entanto, já são um assunto esgotado em si — em um pequeno desabafo, genuinamente não aguento mais ver pseudorreflexões sobre o Substack por aqui.
Por isso, não tendo o que dizer, não digo: apenas trago para cá o que tenho lido, nos livros e no Substack.
Tetralogia Napolitana, da Elena Ferrante
Atualmente estou começando “História da Menina Perdida”, o último livro. Tecnicamente não posso recomendar a tetralogia inteira se não a terminei, mas recomendo os três volumes anteriores de olhos fechados. A história de Lila e Lenu, da forma como Elena Ferrante a escreve, é o retrato mais sincero e intrigante da amizade feminina que já vi.
Ver as personagens crescendo — ora juntas, ora separadas — ao longo da leitura tem sido uma experiência inquietante, mas de um jeito muito bom e muito único. Existem muitos livros no mundo com os quais eu e outras mulheres podemos nos ver e pensar o mundo, mas nenhum deles me deu tanto o que pensar quanto a escrita de Ferrante.
Nota da autora: também comecei a assistir a adaptação, disponível na HBO Max. Estou gostando bastante, mas vendo com muita calma porque estou usando os episódios para estudar italiano também. Por enquanto, deixo anotado aqui que a tetralogia e a adaptação ainda vão ganhar uma newsletter inteira para elas, mesmo que demore um tiquinho.
Bad Feminist, da Roxane Gay
Bad Feminist é uma coleção de ensaios sobre feminismo e a leitura do mês no clube do livro da Dua Lipa. É a minha segunda leitura do momento — sou viciada em sempre ter uma leitura no papel e outra no Kindle — e, na mesma linha da tetralogia, também tem me dado muito o que pensar.
Mas o tom aqui é outro: Roxane Gay vai da cultura pop à política de maneira engraçada e inteligente ao mesmo tempo — que falta me faz uma palavra equivalente a “witty” em português — e, até nos tópicos mais sensíveis, o faz como uma amiga. Os seus ensaios têm um quê das conversas que amigas teriam em um jantar (ou um brunch), e isso os deixa cada vez mais interessantes para mim.
Deixo aqui um fragmento do texto do clube do livro que incentivou a minha leitura (em tradução livre): “Se você está imaginando como é possível ser devidamente feminista e, ao mesmo tempo, amar músicas com letras problemáticas, reality shows e romcoms questionáveis, parabéns, você é exatamente o tipo de “feminista ruim” da qual Roxane Gay está falando. E não se engane pelo título: Bad Feminist é o argumento mais claro em defesa do feminismo que eu já vi.”







