Jornalismo de sensações e cultura de fandom
Texto adaptado do trabalho final da disciplina de História da Comunicação do curso de Jornalismo da UFRJ
O jornalismo de sensações parte do conceito da informação como um dispositivo para a criação de laços. Com a intenção de mobilizar o leitor, a notícia, que já tem a função de fazer saber, passa a ter, também, a função de “fazer sentir”. A ideia, aqui, é fazer com que o leitor se sinta parte de notícia, como se estivesse vivenciando o fato.
Conforme o próprio nome indica, esse tipo de jornalismo toma as sensações do leitor como “moeda”, pois são elas que dão valor à notícia: o laço com o público é o que chama atenção, aumenta a audiência, transforma a transmissão de informação em algo muito maior.
O fator do entretenimento ocupa um papel crucial nessa relação, aproximando ainda mais o público interessado — e aí é que surge o “infotenimento”, um misto entre informação e entretenimento muito presente no meio do jornalismo cultural.
Dos anos 60 para cá, o jornalismo cultural vem sendo cada vez mais marcado por sua relação com a indústria do entretenimento e a cultura de fandom. O fenômeno que começou com a beatlemania hoje abrange praticamente qualquer tipo de mídia passível de ser apreciada — algumas nem tão passíveis, mas apreciadas mesmo assim — e, querendo ou não, dita uma boa parte do funcionamento da indústria do entretenimento.
O jornalismo cultural atualmente trabalha, em sua essência, para e com os fãs. Os jornalistas levam a informação, os lançamentos e as críticas aos fandoms, e, de forma cíclica (e até poética), os fandoms não raramente “retribuem” o gesto levando os fãs até o jornalismo. Maria Fernanda Caribé, de 21 anos, é uma jornalista em formação que, bem antes de tornar-se estudante do curso, já era muito fã de muitas coisas, de Paramore aos Tribalistas. Ela conta:
“Uma das coisas que me impulsiona a seguir neste curso e profissão é minha paixão pelo cinema, pela literatura, pela música. Pela arte e cultura, pela possibilidade de conhecer novas perspectivas e produções artísticas, e, da mesma forma, trazer isso ao público por meio da informação. Eu sabia que queria trabalhar nesta área/editoria desde os 16 anos, antes mesmo de saber que ela se chamava ‘jornalismo cultural’.”
Maria Luísa Vaz (@cinemmalu), estudante de jornalismo e estagiária da editoria de cultura do Correio Braziliense, também relata que a sua relação com a cultura teve uma influência importante em sua vida:
“Por influência da minha mãe e tias, cresci indo ao cinema e assistindo a premiações. Minha tia cantava ABBA para a barriga da minha mãe quando ela estava grávida, depois cresci ouvindo o grupo em casa, e aos três anos elas me levaram para assistir Mamma Mia no cinema, que hoje é um dos filmes favoritos. Não lembro da minha vida sem essas músicas e esse filme, e sinto que eles ajudaram a moldar minha personalidade.”
O impacto do chamado “fazer sentir”, no entanto, não é só um grande esquema de pirâmide para formar novos jornalistas — embora eu tenha que admitir que também funcionou comigo. Em uma escala ainda menor, mas talvez ainda mais significativa, a cultura de fandom é responsável por firmar os laços mais importantes que a informação poderia formar, marcados pelo senso de pertencimento e comunidade. Para as estudantes, o reconhecimento com a obra traz a sensação de refúgio e também de identificação — não só com o artista, mas também com outros fãs.
“Amo a ideia de fan accounts, ou qualquer outro tipo de perfil nas redes sociais. Esse reconhecimento é fundamental, porque você se aproxima de alguém por afinidades em comum, tem alguém para conversar sobre tudo que você ama e tem a chance de construir uma amizade pra vida toda, o que já me aconteceu inúmeras vezes.”, conta Maria Luisa.
Junto às chamadas fan accounts, comumente administradas por fãs individualmente, existem também os fã-clubes ou portais, contas dedicadas a postagens rotineiras de atualizações, curiosidades e novidades sobre um determinado artista, série, ou filme. Essas páginas costumam ser o centro de interações de um determinado fandom, promovendo uma verdadeira comunidade.
Pamela Aparecida, de 20 anos, é uma das administradoras do portal Hozier Brasil, que conta com cinco mil seguidores no X (antigo Twitter), desde 2021. A jovem conta que a página surgiu a partir das trocas que tinha com as amigas Sophia, Marina e Amanda, também administradoras do portal: todas eram muito fãs do cantor irlandês Hozier e constantemente conversavam na Internet sobre o artista e suas músicas durante a pandemia. Quando decidiram criar o Hozier Brasil, as amigas desenvolveram um sistema de parceria para equilibrar a administração da página com os estudos e a vida pessoal de cada uma. Nesse sentido, Pamela afirma que o amor em comum pelo cantor fortaleceu uma amizade que já existia, porque todas elas sabiam que podiam contar uma com a outra.
“Eu conheci elas antes de conhecer o Hozier, mas ele fortificou [a amizade] quando criamos essa página. Hoje em dia conversamos todos os dias sobre o trabalho dele e sobre coisas de fora também, elas são as minhas melhores amigas no mundo.”
Em 2024, o Lollapalooza Brasil anunciou Hozier em seu line-up para o que seria a sua primeira apresentação em território brasileiro. A Universal Music Brasil, que representa o cantor no país, reconheceu o trabalho das quatro jovens na página e as convidou para conhecer o artista no backstage do Lollapalooza antes do show. No entanto, nem tudo ocorreu como planejado. Na época, Pamela morava no interior de Minas Gerais e havia comprado passagens de ônibus para a capital de São Paulo com o horário de chegada previsto para a manhã do dia do show. Problemas na estrada causaram um enorme atraso na viagem, e o grupo das administradoras disparava com mensagens preocupadas com a possibilidade de que Pamela não chegaria a tempo do encontro com o cantor.
“A todo momento, elas foram muito atenciosas. Quando o motorista falou que o meu ônibus ia atrasar, a minha amiga Amanda falava ‘Não, vai lá na frente, conversa com o motorista! Vamos ver o que a gente consegue fazer [...] Se você quiser, me coloca aí, eu converso com ele!’”
Por sorte — ou por destino —, Pamela conseguiu chegar, correndo, instantes antes do cantor subir no palco. Todas as suas amigas já estavam lá e haviam explicado ao cantor e à produção a sua preocupação com o atraso da amiga, que estava muito ansiosa para o encontro. Essa ansiedade, no entanto, não se devia apenas à oportunidade de conhecer o seu ídolo: aquele encontro também seria a primeira vez em que as quatro jovens, que já cultivavam uma amizade há anos pela Internet, se veriam pessoalmente. A chegada de Pamela no local felizmente foi registrada por Ruth Medjber, fotógrafa que acompanha Hozier em tour, e o vídeo mostra a jovem correndo diretamente aos braços de suas melhores amigas enquanto o artista, igualmente confuso e feliz, observa a cena sorrindo. A jovem, eufórica e aliviada, tenta explicar para as amigas o seu nervosismo antes de se dirigir a Hozier, que a recebe de maneira calorosa em um abraço.
“Quando eu passei pela porta que dava acesso ao local onde elas estavam com ele, eu fiquei ‘Meu Deus do céu, o Hozier tá ali!’, então eu tinha visto ele, eu tinha a noção de que ele estava ali e não ia sair dali. Mas quando eu cheguei, eu só conseguia ver elas. E eu precisava explicar para elas o que tinha acontecido. [...] Na hora, eu estava muito nervosa, esqueci como falar inglês e ainda dei as costas pro Hozier pra falar com a fotógrafa dele, eu estava muito deslumbrada com tudo. Assim, foi um momento lindo, e não teria sido igual se não tivesse sido com elas, porque a conexão que eu tenho com essas pessoas é de outro mundo.”
Link do vídeo: https://x.com/ruthlessimagery/status/1772796300435608000
A história de Pamela demonstra como, no contexto atual, a comunicação, além de superar a simples transmissão de informações, extrapola a relação entre o indivíduo e o que é transmitido — seja uma ideologia, um evento ou, neste caso, a arte de alguém. A comunicação, especialmente no que diz respeito ao jornalismo de entretenimento e a cultura de fandoms, une as pessoas por meio da informação de tal maneira que o seu propósito inicial torna-se plano de fundo para algo muito mais duradouro. Na tentativa de criar uma conexão mais íntima do indivíduo com a notícia, o jornalismo de sensações acaba por proporcionar, também, o espaço para a conexão do indivíduo com os outros.
Outrora, o intuito era fazer o espectador se sentir parte da experiência. Hoje, o espectador — na figura do fã — tem a sua própria história a contar, e felizmente já conta com um onde, um quando e um como: em todos os lugares, a qualquer momento e com o coração. Só falta quem a conte.



