Há uma grande ruptura em Nápoles
E em mim
Nota da autora: Sumi e agora voltei descendo às profundezas do clickbait Substack-iano: apesar do título, esse não é um ensaio sobre rasgar o peito e botar tudo para fora — o meu coração está bem onde está, muito obrigada. Depois de mais de um mês sem aparecer, escrevi um texto de gênero indefinido sobre o que mais me marcou desde a última edição. A faculdade (infelizmente) não tem me presenteado com muito tempo livre para que diversas obras me marquem, mas as que ainda têm se encaixado nos meus dias compensam a quantidade com qualidade. :)
O mês de abril começa sempre com a mentira. Esse ano, para compensar, o meu terminou com uma avalanche de realidade(s) trazida por duas obras: História da Menina Perdida, último volume da tetralogia napolitana, e The Great Divide, o novo álbum do Noah Kahan. Apesar do clickbait, não é exagero dizer que existe, sim, uma ruptura em mim causada por elas. Um antes e um depois.
Passei cerca de quatro meses lendo a Tetralogia Napolitana. Não por falta de tempo, mas por apego. É curioso: geralmente, quando me apego muito a uma obra ou aos personagens, devoro tudo de uma vez. Com Lila e Lenu, senti o extremo contrário. Eu não queria terminar de ler, não queria dizer tchau, e escolhi demorar para saber o que acontece só para não descobrir tudo e ficar sem ter o que saber. Agora que terminei de ler, sequer pensaria duas vezes antes de aceitar esquecer tudo só para poder devorar todos os livros de uma vez só.
Eu não posso dizer “precisamos falar sobre como a Elena Ferrante representou todas as mulheres do mundo com a Lila e a Lenu”, porque eu sei que já tem muita gente falando disso há muito tempo — eu é que cheguei atrasada. Mas enquanto dentro de todo ser humano existem dois lobos, dentro de mim existem, agora, duas napolitanas.
E como tudo na minha vida é aproveitar oportunidades para falar do que gosto onde puder, submeti um resumo de pesquisa esses dias relacionando as condições de escrita feminina — as que a Virginia Woolf escreve sobre em “Um Teto Todo Seu” — com as narrativas da Lila e da Lenu. A credibilidade das minhas afirmações que começam com “pretendo escrever sobre” não está em alta, eu sei, mas eu ainda pretendo transformar o resumo da minha pesquisa em um ensaio para cá, então vou guardar os meus (muitos) sentimentos em relação à tetralogia para depois.
Na mesma semana em que me despedi de Lila e Lenu, fui apresentada ao novo álbum do Noah Kahan. Imaginem como estava a cabeça do palhaço durante esses dias. E o engraçado — se é que posso usar essa palavra — é que as duas obras conversam muito. The Great Divide soa, para mim, como a continuação da história que escutamos em Stick Season, mas não da forma esperada.: enquanto Stick Season é um álbum melancolicamente esperançoso, The Great Divide é um álbum saudoso e até pesaroso. As histórias de quem sonha em partir e recomeçar viraram histórias de quem conseguiu o que queria, mas percebeu que as coisas não são como imaginava. Isso por acaso lembra algum de vocês de alguma escritora napolitana que voltou para o seu bairro natal em todos os seus best-sellers mesmo depois de anos fugindo dele?
Por mais devastadora que seja a experiência de escutar o álbum, ele é uma baita de uma continuação para a discografia já valiosíssima do Noah Kahan. Pouco antes do lançamento, correram rumores de que talvez ele não fosse conseguir manter o nível do trabalho anterior, mas ele felizmente foi lá e dobrou a aposta: The Great Divide é um álbum ainda mais longo, ainda mais folk e ainda mais capaz de te revirar por inteiro. Os meus parabéns para o Noah Kahan, de verdade, mas eu só espero que ele saiba que o meu amor nem sempre vai se converter em streams — eu preciso pelo menos dar uma chance para o meu dia antes de escutar uma música como 23 a caminho da faculdade.
Ainda falando em obras capazes de te revirar por inteiro, assisti Merrily We Roll Along por recomendação da minha querida amiga Malu (do Cinemmalu): ela escreveu um texto lindíssimo sobre essa peça e a importância de não abrir mão dos nossos sonhos ou do que amamos só porque a vida adulta é como é. Ele foi publicado lá no início de abril, e eu, já no final do maio, lembrei dele com muito carinho numa semana especialmente puxada por aqui. Reli o texto (que continuou sendo um grande abraço) e decidi, então, assistir o musical.
Que boa decisão! A história acompanha a amizade de Frank, Charley e Mary ao longo de várias décadas, só que ela é contada ao contrário: primeiro, conhecemos o prestigiado escritor Franklin Shepard, e intuímos que existe um passado do qual ele abriu mão em troca da fama. Ao longo da peça, vamos descobrindo como Frank veio a ser quem é, mas também conhecemos o jovem sonhador que ele já foi um dia ao lado de Charley e Mary.
É verdade que a história cronológica provavelmente soa como um cautionary tale. Entretanto, o que importa para mim é que ela não é — contada de trás para frente, ela se torna um lembrete da grandeza daquilo que a gente tem uma tendência chatíssima a deixar de lado: os nossos sonhos de criança, o que sempre amamos fazer e os amigos que estão conosco desde sempre.
O recado que ficou comigo ao fim é um “calma, ainda está tudo bem”. A coisa é respirar fundo, segurar na mão de quem acredita em você e não perder os seus sonhos de vista. E o recado ainda bateu mais forte porque chegou nas vozes maravilhosas do Jonathan Groff, do Daniel Radcliffe e da Lindsay Mendez. Quando eles cantam, é para escutar com os ouvidos e com o coração!
It’s our heads on the block
Give us room and start the clock
Our time coming through
Me and you, pal, me and you!
- Our Time
Por último — mas definitivamente não menos importante —, Hacks. Um acontecimento, a história da televisão sendo escrita na frente dos nossos olhos!!!!!!!!!!
Nota da autora: ironicamente, essa é outra mídia que comecei a assistir por conta da Malu do Cinemmalu. Juro que ela nem sequer sabe que será mencionada aqui na newsletter, então esse é o sinal mais genuíno possível de que ela só não erra nunca e vocês deveriam acompanhar as recomendações da diva ;)
Achei que o último episódio foi a conclusão mais perfeita que essa série poderia ter tido, de verdade. Um dia antes do lançamento, eu estava perdendo a cabeça com o fato de que não fazia ideia de como seria o finale. Depois de assistir, tive a certeza de que não poderia ter sido de outro jeito. Vou evitar me alongar porque não quero dar spoilers (é muito melhor se deixar ser surpreendido), mas é simplesmente lindolindolindo pensar que a história acaba com a Ava e a Deborah escolhendo, apesar de tudo, não abrir mão da possibilidade de mais um dia — seguido por outro, e talvez mais um — rindo e criando juntas. Já levou todos os Emmys do mundo no meu coração!
Para junho, até posso dizer que estou animada para a estreia de Supergirl, mas não tenho como me esconder da verdade: o assunto do meu mês é o you seem pretty sad for a girl so in love. Eu me conheço e sei — assim como todo mundo que me conhece também deve saber — que não vou deixar ele de lado tão cedo, então economizo linhas desse assunto hoje para aproveitá-las na semana que vem. Essa é, aliás, a minha promessa de que semana que vem também tem newsletter — se não por compromisso, por incapacidade de não falar sobre a Olivia Rodrigo em toda oportunidade que eu tiver. Até lá! ;)









que emoção indescritível!!! 🥹🥹🥹 tava lendo o texto porque amo sua escrita e acompanhar sua newsletter e fui surpreendida com as duas menções às minhas indicações! fico imensamente feliz, do fundo do meu coração, que você só não gostou delas mas que elas tiveram algum significado na sua vida ou eram o que você estava precisando ouvir em determinado momento, porque é com essa intenção que eu escrevo os textos e vídeos. obrigada pelo carinho 💌 é sempre uma felicidade ler suas palavras!