Favoritos e apostas do Oscar
Com convidadas mais do que especiais: minhas amigas e (futuras) colegas de profissão!
A temporada favorita de todos os cinéfilos chega ao fim hoje. Não sei se só eu tive essa impressão por ter conseguido assistir vários filmes bem cedo, mas essa temporada já estava parecendo infinita para mim…
Não me dediquei tanto a assistir os indicados fora das categorias principais, infelizmente, mas a minha animação continua a mesma: são oito anos (e contando) acompanhando a premiação, e não assistir certos filmes nunca me impediu de dar pitacos mesmo assim.
Nota da autora: É muito doido pensar que tenho 19 anos de vida e já dediquei uma parte considerável dos últimos oito — quase metade do todo — a esse mundo caótico de filmes, estrelas e prêmios pouco ou muito merecidos. Mas eu poderia estar roubando, matando ou usando drogas, então acho que deixo os meus pais felizes só gastando todo o meu dinheiro com ingressos de cinema e perdendo umas boas horas de sono em alguns domingos do ano.
Dessa vez, no entanto, vou poupá-los das minhas abobrinhas sem qualquer fundamento, e deixar aqui somente as abobrinhas sobre os filmes que eu realmente assisti (em alguns casos, mais de uma vez).
E mais: também vou presenteá-los com as incríveis opiniões de amigas com quem eu tenho a sorte enorme de compartilhar um curso universitário e essa vida de fangirl. Os melhores presentes que a Crônica me deu são as trocas com outras estudantes de jornalismo que também têm os seus cantinhos por aqui, então é apenas justo que eu retorne o favor e as traga para a Crônica.
Somos um tanto parecidas, é verdade. Vários dos favoritos e apostas se repetem, mas não combinamos nada — só acontece que todas nós temos um ótimo gosto. ;)
Sem mais delongas, os nossos humildes pitacos:
Giovanna Orcioli (@acronicaturquesa)
Indicados favoritos:
Hamnet: Dizer que esse é o melhor filme do ano está longe de ser uma opinião única, mas acho um tanto quanto bonito que várias pessoas partilhem da mesma opinião por diferentes questões que as tocaram. Hamnet é, talvez, o filme mais sensível que já vi, e um retrato lindíssimo — até metalinguístico, se considerarmos o tanto que o próprio filme emocionou — do que a arte pode ser para nós. Mais do que isso, para mim, ele serviu como um lembrete de que contar histórias e ter quem as escute não é só um mero passatempo, mas uma necessidade humana.
Valor Sentimental: Por muita sorte, foi o primeiro indicado que assisti. Tive o privilégio de ver esse filme durante o Festival do Rio, no Cine Odeon — o cinema mais bonito do Rio e do mundo, na minha humilde opinião — e sinto que a experiência o tornou ainda mais especial para mim. Não tenho palavras para engrandecê-lo, mas por um bom motivo: o que tanto me encantou nele é justamente o que é pequeno e parece desimportante, pois sou e sempre serei uma grande fã de filmes sobre pessoas sendo pessoas. Escrevi um pouco mais sobre ele aqui.
Indicação que fez falta:
Sorry, Baby em Melhor Roteiro/Direção: “Sorry, Baby” foi um dos meus filmes favoritos de 2025, e também uma das minhas maiores surpresas. Ele entra na minha estimada categoria de “filmes sobre pessoas sendo pessoas”, mas se destacou, para mim, pelo seu perfeito equilíbrio. O filme tem um quê de humor e aborda questões muito sérias sem que uma coisa prejudique a outra, e também consegue se mostrar bastante sentimental sem abrir mão do ceticismo marcante da protagonista — e o feito se torna ainda mais impressionante tendo em vista que essa é a estreia de Eva Victor no roteiro, na direção e no protagonismo de um longa.
Maior aposta:
Timothée Chalamet como Melhor Ator: Aqui eu preciso pedir a licença poética de só ser uma grande fangirl por um momento. O Timothée é o meu ator favorito desde 2019 — não é exagero dizer que ver ele no cinema como Laurie em “Adoráveis Mulheres” foi um divisor de águas, até porque o filme e a Jo, protagonista, acabariam se tornando inacreditavelmente especiais para mim depois — e eu já vi esse homem ser indicado a muitos prêmios, mas nunca o vi levar nada. Não posso, portanto, fingir que não estou em êxtase agora que ele finalmente tem a chance de levar um Oscar… Escrevi um pouco mais (e de forma mais articulada) sobre Marty Supreme e a performance do Timothée aqui.
Luiza Aridio (@spidersfolk)
Indicados favoritos:
Valor Sentimental: Todas as indicações foram muito merecidas. Esse é aquele tipo de filme que pega a gente de jeito, porque fala sobre algo que todos em qualquer lugar do mundo podem se identificar, como dramas e relações familiares, de forma profunda. A casa se torna praticamente um personagem e o roteiro, para mim, é impecável. Fiquei totalmente imersa e nem percebi que mais de duas horas tinham passado. O núcleo familiar composto por Stellan Skarsgård, Renate Reinsve e Inga Ibsdotter entrega atuações incríveis, e não posso deixar de mencionar que a Elle Fanning brilha na proposta da sua personagem. Foi um filme que me marcou muito, e sei que vou rever muito mais vezes ao longo da vida.
Pecadores: Foi o meu filme favorito do ano passado. Tudo nele me encantou, desde a mistura de vampiros com a questão musical e a forma como o vampirismo representa uma cultura tentando absorver elementos de outra… é incrível. A cena da dança ficou gravada na minha memória, assim como a trilha sonora. São 16 indicações, um recorde merecido, e é fascinante ver um filme de terror marcando presença no Oscar abordando um drama histórico e questões sociais ao mesmo tempo.
* Curta animação
Tirei um tempo para ver os curtas indicados e fui muito surpreendida por diversos trabalhos encantadores, mas especialmente pelo francês La jeune fille qui pleurait des perles (A Menina Que Chorava Pérolas). É lindo e acredito que todos deveriam dar uma chance!
Indicação que fez falta:
No geral, achei as indicações coerentes, com exceção de algumas (F1, por exemplo, na minha opinião não merece competir em Melhor Filme). Mas senti falta da Chase Infiniti, que entregou uma atuação muito boa em “Uma Batalha Após a Outra”. Ela se mostrou uma atriz incrível e merecia estar entre as indicadas. Também acreditava que Paul Mescal seria indicado como Melhor Ator Coadjuvante por “Hamnet”, o que infelizmente não aconteceu.
Maior aposta:
Acredito que o dia 15 vai trazer resultados fortes e, em alguns casos, previsíveis. Minha maior aposta da noite é Jessie Buckley como Melhor Atriz por “Hamnet”. Também vejo “Valor Sentimental” e “Uma Batalha Após a Outra” chegando com tudo. Mas o meu lado fã torce muito por “O Agente Secreto”: embora não tenha achado um filme 5 estrelas, é sempre maravilhoso poder ver o Brasil ganhando espaço e sendo reconhecido mundo afora. Também não consigo deixar de sonhar que “Pecadores” vai levar várias categorias!
Malu Vaz (@cinemmalu)
Indicados favoritos:
Hamnet: Esse filme me encantou de tal forma que, além de ser meu favorito da temporada, é um dos melhores que vi no ano e na vida. Todos os elementos do longa — a direção delicada de Chloé Zhao, a atuação potente e sublime do elenco (com destaque para Jessie Buckley, Paul Mescal e Jacobi Lupe), a fotografia belíssima e o roteiro magnífico — o tornam um dos retratos mais belos e vulneráveis sobre luto, maternidade e o poder da arte. Penso nesse filme constantemente desde que o assisti (quero muito revê-lo) e escrevi uma crítica dele e um texto sobre transformar a dor em arte no Substack.
O Agente Secreto: Como uma pessoa que acompanha o Oscar desde que me entendo por gente, me enche de orgulho ver o Brasil presente (e sendo reconhecido) na premiação por dois anos consecutivos! Principalmente porque tive a chance de trabalhar com jornalismo cultural e acompanhar de perto todo esse processo, desde ir na cabine do filme em setembro até escrever uma crítica dele para o jornal, a vida é surreal às vezes. Muito além do clubismo de ser brasileira, eu genuinamente achei o filme impecável. Meu primeiro contato com o cinema de Kleber Mendonça Filho e eu não podia ter aproveitado mais. Direção, elenco (!!!!!), fotografia, TRILHA SONORA!!!, edição, TUDO!!, um filme intrinsecamente brasileiro e extremamente necessário.
Indicação que fez falta:
Paul Mescal como Melhor Ator Coadjuvante: Não quero ser redundante ao mencionar “Hamnet” em três tópicos diferentes, mas o Paul Mescal estava impecável como William Shakespeare e me chocou ele não ser indicado como Melhor Ator Coadjuvante (tem pessoas bem piores que eu trocaria por ele facilmente na categoria). Eu acompanho a carreira dele faz alguns anos e é evidente que ele nasceu para os dramas/o melodramático e é realmente bom no que faz. Torci muito para ele ganhar a estatueta por “Aftersun”, mas acredito que, vendo o rumo que sua carreira está tomando, não vai demorar muito para ele ser reconhecido pela Academia.
Maior aposta:
Jessie Buckley como Melhor Atriz: Perfeita. É isso, não preciso elaborar. Basta você assistir “Hamnet” que é impossível não concordar comigo. Por uma pura coincidência, conheci o trabalho da Jessie em uma adaptação de Romeu & Julieta que ela estrelou ao lado do Josh O’Connor e instantaneamente fiquei encantada pela atuação e pelo talento dela. Depois de assisti-la dando tudo de si em “Hamnet”, percebi que ela nasceu para as tragédias shakespearianas, é um talento nato. Ela vem ganhando grande parte dos prêmios na temporada, e acredito fielmente que o Oscar também vai ser dela (merecidíssimo).
Mafe Caribé (@zinetrela)
Indicados favoritos:
Hamnet: Às vezes acho que não consigo verbalizar os meus pensamentos sobre “Hamnet” por completo. Ele é catarse pura. Enxergo-o como uma grande execução de tudo que mais amo no cinema - a arte como forma mais divina de cura e de celebração da vida. Tudo isso por meio de um trabalho fenomenal da Chloé Zhao, Jessie Buckley, Paul Mescal, Jacobi Jupe e todo o elenco e equipe!
Valor Sentimental: Talvez este ano o meu favoritismo esteja relacionado a filmes que usam da arte para expressar o que não pode ser articulado no ordinário. Sabia que ia amar “Valor Sentimental” desde a sua primeira cena do ensaio sobre a casa, e a cada momento o amor foi crescendo cada vez mais. Sou muito fã das atuações e do roteiro deste aqui; como ele é um conjunto que manifesta um lado tão humano, simples e cheio de ternura.
Indicação que fez falta:
Paul Mescal como Melhor Ator Coadjuvante: Como a Academia não tem o mínimo costume de indicar crianças, deixo meu desejo do Jacobi Jupe ganhar uma indicação e comento sobre seu pai (ficcional). Já assisti 89% dos trabalhos do Paul. Ele sempre entrega um desempenho autêntico e com bastante dedicação. Acho que essa seja sua melhor atuação até agora. *calma nicho “Aftersun” e “Pessoas Normais”, ainda estou com vocês!* Visto que “Hamnet” teve uma grande (e especial) repercussão, fiquei surpresa que ele não foi indicado pela sua atuação.
Maior aposta:
Ludwig Göransson (Pecadores) em Melhor Trilha Sonora: Queria fugir das categorias de atuação aqui, porque 1) não estou tão segura nas minhas apostas 2) não quero ficar monotemática e falar de “Hamnet” em tudo, mas bem que não faria mal, né? hahaha O eixo musical de “Pecadores” é algo primordial para história e, na minha opinião, uma das melhores partes do filme. É de tirar o fôlego e não é surpresa alguma quem está por trás da produção — Ludwig é tipo um Beethoven moderno. Entre as 16 indicações de “Pecadores”, esse é o prêmio que eu tenho certeza que ele vai levar. [Infelizmente, as Guerreiras do K-Pop são um obstáculo para a dobradinha com melhor canção original…]
Ana (@wereadsomebooks)
Indicados favoritos:
Pecadores: Quando assisti ao trailer desse filme pela primeira vez, numa sessão do já esquecido “Mickey 17”, não imaginei que ele fosse fazer tanto sucesso — muito menos que fosse se consolidar como um dos meus queridinhos dessa temporada de premiações. Na época, algo sobre a visão do Michael B. Jordan com uma metralhadora me parecia extremamente batido, o prenúncio de mais um filme de machão com um protagonista sarado sem muito a dizer. Feliz engano o meu. O fenômeno cultural que “Pecadores” se tornou deixou claro, bem cedo, que não é apenas possível conciliar efeitos especiais e grandes nomes com uma mensagem importante: é necessário. A direção e o roteiro de Coogler fazem brilhar uma história sensível, que equilibra o cotidiano e o folclórico de maneira musical, sangrenta e, acima de tudo, muito hábil. De todos os indicados desse ano, acredito que “Pecadores” vai deixar o impacto cultural mais duradouro. E justamente. Essa é a verdadeira potência de um blockbuster.
O Agente Secreto: A Ana que assistiu “O Agente Secreto” pela primeira vez numa sessão especial no CineBH em setembro de 2025 nunca diria isso, mas a Ana que reassistiu “O Agente Secreto” com os pais em dezembro de 2025 vai dizer: poucas pessoas sabem fazer um filme como Kleber Mendonça Filho. Talvez ele seja pirracento, insistente, escrachado, autorreferencial, repetitivo, frustrante, convencido, mas ele também é, sem dúvidas, ele mesmo. E em tempos de grandes estúdios, não tem nada mais refrescante do que ver um diretor que não tem medo de bancar suas ideias fazendo o que gosta. “O Agente Secreto” é uma carta de amor à Recife, ao poder dos arquivos, às cores vivas, ao Wagner Moura, aos cinemas, ao jornalismo, aos esquecidos, às esquisitices e, de várias formas, ao próprio KMF. Se você já não gosta dele, provavelmente não vai gostar do filme. Eu, pessoalmente, me amarro em ambos.
Indicação que fez falta:
A Única Saída em Melhor Direção/Filme: Seja por arrogância minha ou pelo fato de que ter crescido lendo fanfics desenvolveu em mim um desrespeito natural pela constituição da obra alheia, raramente saio do cinema com a impressão de que não mudaria nada em um filme. “A Única Saída”, no entanto, me despertou esse sentimento. Cada diálogo, cada frame, cada reviravolta parecia essencial pro desenrolar dessa história absurda, e nem por isso menos cotidiana. Respirar dentro do ecossistema delicado que Park Chan Wook constrói ao longo dessas duas horas é uma experiência enervante, ao mesmo tempo que tranquilizadora: por mais que tudo dê errado na vida daqueles personagens, nada será em vão, então aproveite a jornada. Afinal de contas, você está nas mãos de um dos grandes diretores da atualidade. Uma pena que o Oscar não concorde.
Maior aposta:
Jessie Buckley como Melhor Atriz: a aposta mais certa de todo mundo que você conhece, mas não podia ser diferente. “Hamnet” não respira sem a presença da Jessie Buckley, e não teria metade da força que tem se ela não tivesse estado disposta a derramar ranho, suor e lágrimas para fazer tudo funcionar. A força resignada, a coragem e o luto profundo de Agnes transparecem a cada segundo que ela ocupa a tela. Chamem de Oscar bait o quanto quiserem, não existe ninguém na categoria de Melhor Atriz esse ano que vai conseguir arrancar esse prêmio das mãos dela.
Madu (@entremaresons)
Indicados favoritos:
Valor Sentimental: Joachim Trier tem uma maestria em conduzir os sentimentos
através dos filmes, e em “Valor Sentimental” não foi diferente. Ele foi incrível em todos os detalhes. O que torna esse filme o meu grande preferido dessa temporada, é, sem dúvidas, o cuidado com os sentimentos. Eu amo as atuações desse filme. A Renate Reinsve está sempre evoluindo e sempre sendo brilhante em todos os seus papéis, e é maravilhoso ver o Stellan Skargård, em um momento incrível da carreira onde já merecia ter reconhecimento, sendo reconhecido por um papel tão importante.
Foi Apenas um Acidente: Filmes que sabem dialogar com o presente são sensacionais. E no contexto histórico que se vive atualmente, Jafar Panahi sabe bem o que faz. Foi o primeiro filme dele que eu assisti, e saí da sala de cinema de queixo caído. E eu amo quando isso acontece, pelo simples fato de que é magnifico quando histórias são boas a ponto de nos fazer enxergar o que de fato querem mostrar. Sinto que todos deveriam apreciar esse ótimo filme, e é claro que eu mesma mal posso esperar para mergulhar mais na filmografia desse ótimo diretor.
Indicação que fez falta:
Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria: Ver a Rose Byrne entre as indicadas é muito
bom, mas, honestamente, eu senti falta da academia reconhecendo o valor que esse filme e história têm... É triste ver que um filme que fala sobre um assunto que persiste na nossa sociedade não tem o mesmo valor do que outros filmes, que acabam tendo suas histórias repetidas diversas vezes. Parece que não importa o quanto se esforcem, as mulheres nunca vão ter o mesmo reconhecimento que os diretores homens na Academia. E parece também que só terão o apoio e serão vistas quando algum homem grande e importante estiver produzindo ou patrocinando. Gostaria muito que os prêmios de mulheres estivessem aumentando cada vez mais.
Maior aposta:
Michael B Jordan como Melhor Ator: Ele está em sua melhor fase e melhor momento da carreira, e dizer que ele não merece esse prêmio é uma loucura. Dentre os indicados, sinto que apenas sua atuação possui algo de arriscado e interessante para a carreira, e que a Academia está bem de olho. E faço um adendo de que o Brasil vai ter motivos para comemorar e isso vai ser muito especial, novamente!
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