Em defesa do analógico
Ou quase isso
Toda trend é sempre sobre consumo. Esse é um fato incontornável. Você pode tentar vê-las de inúmeros diferentes ângulos ou até de cabeça pra baixo, mas elas não se tornarão algo diferente do que são: um motivo a mais para você consumir.
Isso é dolorosamente visível quando olhamos para a trend mais recente da Internet, que declarou que 2026 é o ano da “vida analógica”: todo mundo está comprando cadernos de couro, kits de costura, tintas e pincéis, câmeras analógicas, linhas e agulhas de crochê, vitrolas e discos.
Só que eu digo “dolorosamente” porque eu sou uma dessas pessoas. Eu tenho uma vitrola, coleciono discos, tenho mais cadernos de anotações do que consigo contar, faço parte de um laboratório de fotografia analógica e me dou um planner de presente todo ano porque me recuso a usar o Google Agenda. Se existe alguém no mundo com alguma moral para criticar a trend analógica, essa pessoa certamente não sou eu.
E é por isso que eu vim, na verdade, defendê-la — só não antes de esclarecer que estou profundamente ciente do consumismo por trás da coisa. E aproveito para esclarecer que a ironia de que o mundo digital esteja sendo tomado por posts sobre a vida analógica também não me escapa.
Ainda assim, há algo a se considerar no meio disso tudo. Não, nós não precisamos gastar dinheiro com coisas analógicas e postá-las na Internet para mostrar que somos cool. Mas talvez o analógico seja, sim, uma necessidade no momento.
A nossa comunicação já é mais digital do que presencial, nós temos slides ao invés de livros didáticos, e até o cartão de crédito perdeu o lugar para o pagamento por pix. Eu não vou nem abrir a caixa de Pandora que é a inteligência artificial. Com todo o devido respeito a quem está desenvolvendo essas tecnologias todos os dias — que não é muito — ninguém aguenta mais.
É senso comum desde a criação dos primeiros aparelhos celulares que nem todo mundo se adapta bem à digitalização de tudo e todas as coisas. Com os anos, no entanto, o esperado era que as pessoas fossem se acostumando cada vez mais, e isso realmente aconteceu por muito tempo. Só talvez por tempo demais, porque agora demos a volta e estamos ficando cada vez piores nisso. Eu, por exemplo, reconsidero muitas das minhas decisões toda vez que sou obrigada a ler um QR Code.
É curioso perceber, no meio de toda a digitalização, um grupo tão grande de pessoas trazendo o digital de volta para o papel ou para quaisquer outras mídias táteis que conseguirem pensar. Mas não podemos dizer que é surpreendente ou inesperado.
A verdade é que estamos cansados de ver tudo em pixels, de não ter nada tangível, de não estar nos lugares. Sentimos falta dos recados deixados na mesa da cozinha, das cartas que deixamos de escrever e, sinceramente, de tudo o que nos exige mais do que alguns cliques e uma ínfima parcela de atenção. Estar online o tempo inteiro é maçante, e ainda está corroendo os nossos cérebros.
Mesmo que a motivação inicial para os hobbies analógicos venha das redes sociais — e mesmo que todos os seus resultados sejam compartilhados por lá também —, pelo menos estamos criando algo com as nossas próprias mãos. Algo que pode até não nos dar muito orgulho, ser meio torto e desajeitado, e faz parte.
As redes sociais, nesse cenário, são só onde documentamos as nossas criações, e não mais o único lugar em que estamos criando alguma coisa. É verdade que os nossos padrões são baixos, mas isso já deve ser algum tipo de progresso, né?

O “2026 analógico” é uma trend, mas é, também, a nossa solução mais criativa para o mal que nos acomete na forma de horas de doomscrolling, chatbots de IA e capacidades incrivelmente baixas de atenção. Se já não temos mais como voltar atrás, que bom que ainda podemos plantar florzinhas (de papel) no asfalto da digitalização desenfreada. ;)




