Diário de Uma Paixão
Um retrato otimista do fanatismo futebolístico
Matéria escrita como trabalho final da disciplina de Laboratório de Texto I do curso de Jornalismo da UFRJ
O futebol é agressivo. Os estádios são palco de brigas em que homens adultos ganham olhos roxos por conta de um único gol a mais (ou a menos). Muitos torcedores param as suas vidas para assistirem a 22 pontinhos coloridos correndo atrás de um 23º, preto e branco, na televisão de 24 polegadas de um boteco. O fanatismo beira a insanidade aos olhos de qualquer um do lado de fora da bolha futebolística.
Para além das impressões, um estudo apresentado na reunião da Sociedade Radiológica da América do Norte de 2023 já comprovou cientificamente que o comportamento fanático apresenta padrões de ativação cerebral que associam a vitória à recompensa e a derrota a comportamentos potencialmente violentos. Ainda assim, mesmo sendo tão excessivo, irracional e imprudente, o fanatismo sobrevive. Por quê?
A resposta começa com a descoberta de que, por mais escondido que esse fato esteja por trás de jogadores correndo na grama, centenas de regras e inúmeras vozes que gritam coisas incompreensíveis, o futebol é bem mais do que aquilo que aparece na televisão. O futebol é de quem joga, mas também é de quem vê.
André Diniz, professor de história, é torcedor a vida toda e aprendeu a amar o Flamengo com a família que marcava os almoços de domingo não em um horário específico, mas “antes da hora de ir pro Maracanã”. Seu pai, Roberto Diniz, além de ser vice-presidente do Patrimônio Histórico do Flamengo, foi a sua maior referência para tornar-se o rubro-negro que é hoje.
“Na semana do aniversário de 78 anos do meu pai, eu liguei para a minha mãe e perguntei o que ele queria de presente. O que ele tava precisando, assim, pra eu saber o que comprar. Ela me respondeu: ‘Ele quer que você vista a camisa do Flamengo para vocês irem no jogo’, porque a memória mais bonita que ele tinha era a de levar os filhos pro Maracanã. E quer saber uma outra coisa? Meu pai nunca me abraçou. Mas ele me abraçava vibrando toda vez que o Flamengo fazia gol. Só ali, no jogo, na hora do gol. Então esses sempre foram momentos muito especiais”, conta Diniz.
E o alcance do futebol vai muito além do estádio. É parte da cultura carioca saber quando o domingo é no Maracanã — nem que seja só para desviar do trânsito nas redondezas — e não há brasileiro que não conviva diariamente com notícias de torcedores, jogos e rivalidades. Somos o país do futebol, afinal. Mas é mais do que isso: assim como o esporte foi se tornando, com o tempo, uma parte importante da vida dos brasileiros, os brasileiros acabaram se tornando uma parte muito importante do futebol também. Para muitos torcedores, chega a ser difícil imaginar o esporte sem as pessoas com quem se torce junto, e Diniz é um deles:
“Em 2019, eu estava lá na final da Libertadores em Lima [no Peru]. Foi um jogo histórico, muita emoção. Fui com uns amigos, e minha família tava assistindo aqui do Brasil. Antes do jogo começar, a gente fez uma ligação de vídeo, eu mostrei onde eu estava, e eles foram passando o celular pela sala para mostrar a galera, dizendo ‘Todo mundo animado aqui esperando!’, coisas assim. E era bom demais estar lá, claro, mas me deu uma dor enorme no coração, porque uma parte tava faltando. Tinha ficado aqui no Brasil.”
O futebol aproxima as pessoas pela paixão: dá a famílias e grupos de amigos um motivo a mais para um abraço, um encontro, uma comemoração ou um bate-papo que te leva a conhecer alguém novo. De maneira engraçada, também oferece isso tudo pelo motivo completamente oposto: às vezes, o ódio por um time cria amizade até entre rivais. Quando os rivais se enfrentam de novo, no entanto… bem, amigos, amigos, negócios à parte.
Além de aproximar os torcedores entre si, o futebol aproxima os torcedores de quem eles querem ser — os seus ídolos. Segundo algumas concepções, é esperado que as crianças que vestem a camisa de seus jogadores favoritos com orgulho cresçam e simplesmente abandonem toda essa coisa de futebol, porque ficam “velhas demais para isso”.
Mas os ídolos, em alguns casos, realmente nos salvam, independentemente de nossa idade.
Em 2020, Júlio Moreira pegou COVID e teve que ser internado. Ele estava extremamente debilitado e sua família, preocupada com a sua condição. Ainda no hospital, Júlio recebeu de um amigo um vídeo muito inesperado: Mauro Galvão, em sua casa, gravando a si mesmo no modo selfie e dizendo “Olá, Júlio Moreira, aqui é o Mauro Galvão. Tô passando aqui pra te desejar aí uma boa recuperação, que tudo corra bem. Vamo lá, força, amigo! Sei que você é um grande vascaíno, estamos juntos aí nessa luta. Um abraço e saudações vascaínas.”
Galvão é — depois de Roberto Dinamite — o ídolo máximo de Júlio, que sempre foi apaixonado por futebol e pelo Vasco. Quando o time capitaneado por Mauro Galvão ganhou a Libertadores em 1998, o vascaíno até comprou uma camiseta com o número do jogador. Como medir a emoção de, 22 anos depois, ter esse mesmo jogador na tela do seu celular, falando com você, te apoiando em um momento tão difícil? Não é todo dia que o seu herói te deseja uma boa recuperação. A mensagem foi o que motivou Júlio a se recuperar e se manter forte até a hora de sair do hospital, que eventualmente chegou.
Anos depois, em janeiro de 2024, Júlio e sua família foram convidados para a reinauguração da sede náutica do Club de Regatas Vasco da Gama. O vascaíno levou a camisa de Mauro Galvão na esperança de encontrá-lo lá — se o encontrasse, poderia agradecê-lo por tudo e conseguir um autógrafo que tornaria a camisa ainda mais especial. Felizmente, o encontro aconteceu:
Seu filho Gustavo, que compartilhou a história, ainda confessou: “Se eu perguntar [sobre isso] hoje, provavelmente foi um dos melhores dias da vida dele. E talvez ele só esteja aqui por conta da ação do Mauro.”
O futebol cria memórias insubstituíveis, mas também ajuda a preservar a memória daqueles que já se foram e, antes de partirem, marcaram quem ficou com a sua paixão pelo esporte.
No dia 30 de novembro de 2024, foi disputada no Estádio Monumental de Núñez, em Buenos Aires, a final da Copa Libertadores daquele ano. No momento em que o apito final da partida soou, declarando a vitória do Botafogo, um torcedor na arquibancada tirou do bolso uma foto antiga, daqueles álbuns de retratos, de um menino com uma camisa do Botafogo ao lado de uma figura que parecia ser o seu pai. Um torcedor ao seu lado reparou a cena e perguntou se o homem da foto é alguém que já partiu. O rapaz respondeu que era o seu pai, morto na sua frente quando ele ainda era criança. Os dois torcedores — que sequer sabiam o nome um do outro –, então, se abraçam em prantos, como se fossem família.
Alguns dias depois, um deles compartilha essa história em sua conta no X (antigo Twitter), e o post consegue um alcance enorme — chega, inclusive, ao dono da foto, Matheus Araújo, que responde: “Esse cara dessa história sou eu. Obrigado por compartilhar esse momento comigo, irmão! Fomos campeões e honramos todos aqueles que queriam estar. ⭐️🏆😭”
No momento da vitória, uma atitude tão simples quanto carregar uma foto antiga torna-se uma outra vitória em si mesma. O título é uma enorme conquista, é claro, mas a honra de comemorar pelo seu time e por quem te ensinou a amá-lo é uma conquista maior ainda. Representar a paixão de quem já se foi é mais do que só se dedicar ao esporte. É, também, manter viva a lembrança.
Em todo jogo, milhares de pessoas na arquibancada, nos bares e nos sofás de suas casas carregam no peito um amor que, muitas vezes, não nasceu ali: veio de um familiar ou de um amigo, e já foi celebrado a dois durante muitos domingos de jogo. As crianças que assistiam às partidas no cangote dos pais crescem e se tornam os adultos que veem o seu time conquistar uma Libertadores em outro país, movidos pelo mesmo amor que herdaram tão jovens. Os torcedores acabam sendo salvos por ídolos que eles nunca imaginaram conhecer.
Por vezes e mais vezes, a paixão pelo time é mantida viva por quem te leva ao Maracanã todo domingo, por quem te abraça na hora do gol, por quem te deu a sua primeira camisa de time ou por quem te motiva a aguentar a barra só mais um pouquinho. Por quem te ensinou a amar o esporte e, principalmente, a paixão, as emoções e os encontros que vêm com ele. Porque o futebol é mais do que o esporte, mais do que os jogadores em campo e mais do que as brigas fora dele. É, nas palavras de Dani Rojas, a própria vida.
E, então, voltamos à pergunta do início: por que o fanatismo sobrevive?
É um tanto quanto difícil explicar essa resposta para uma pessoa alheia ao futebol, acredite em mim — eu sou exatamente a pessoa que não entende bulhufas de futebol, e levei anos para entender. Nunca consegui gostar do esporte, e sempre quis manter a maior distância possível dos torcedores que levam a coisa toda muito a sério, ameaçam até amigos e entram em brigas terríveis com os rivais. Olhando para a questão da forma como sempre fiz, a permanência desse comportamento seria tão irracional quanto o fanatismo em si. No entanto, acabei por descobrir que, no fim das contas, eu estava fazendo a pergunta errada durante esse tempo todo: nunca foi sobre o porquê. O que realmente explica toda a dedicação, todo o caos e todo o amor é o “por quem”.





