Análise "O Jornalista e o Assassino"
Texto escrito como trabalho final da disciplina de Gêneros Jornalísticos do curso de Jornalismo da UFRJ
Janet Malcolm nasceu em Praga em 1934, filha de uma advogada e um psiquiatra. Quando tinha cinco anos, sua família se mudou para Nova Iorque fugindo do regime nazista. Décadas depois, ao longo de sua carreira, Malcolm se tornou uma das jornalistas mais influentes de seu tempo: considerada uma das principais autoras do “New Journalism”, ela opôs-se à concepção do jornalismo tradicional de maneira única e inovadora.
A autora trabalhava na revista The New Yorker há 21 anos e já tinha três obras publicadas quando recebeu uma carta chamando a sua atenção para o caso McDonald-McGinniss, sobre o qual ela decidiu conduzir uma série de pesquisas e entrevistas. O resultado desse trabalho foi publicado em março de 1989 na revista The New Yorker, na forma de um estudo sobre a conduta jornalística a partir do caso MacDonald-McGinniss, e começava com uma das frases mais marcantes da história do jornalismo: “Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável.”
Tal enunciado é a tese do texto, publicado sob o título “O Jornalista e o Assassino”. A história contada por Malcolm começa quando o ex-médico Jeffrey MacDonald, acusado de assassinar a esposa e as duas filhas, convida o escritor Joe McGinniss para escrever um livro sobre o processo do ponto de vista de sua equipe de defesa. O objetivo do acusado era que a publicação trouxesse uma porção do dinheiro necessário para a sua defesa, e colaborasse para provar a sua inocência. Ao longo de cinco anos, MacDonald e McGinnis extrapolaram os limites convencionais da relação escritor-personagem e tornaram-se íntimos, de modo que continuaram a trocar correspondências mesmo após a condenação de MacDonald. As cartas escritas por McGinnis ao longo desse tempo, assim como toda a relação que as antecede, demonstram enorme empatia à “situação injusta” em que o ex-médico se encontrava, fazendo-o acreditar que o livro, quando publicado, ajudaria a inocentá-lo. A história de Fatal Vision, no entanto, fez o completo oposto, pintando MacDonald como um “narcisista patológico” e afirmando que a probabilidade de sua inocência era praticamente nula. Em 1984, MacDonald, já preso, processou McGinnis por fraude, alegando que o escritor o enganou em prol da cooperação para a escrita de seu livro.
Malcolm, envolvida em seu próprio processo judicial após ser acusada de difamar o psicanalista Jeffrey Masson em seu livro In The Freud Archives, viu no caso uma oportunidade de travar uma discussão que iria muito além dos limites que ela mesma confrontava — enquanto o seu caso dizia respeito à organização de diversas entrevistas em uma única publicação, o caso MacDonald-McGinnis colocava em xeque a conduta jornalística como um todo, buscando resolver dilemas éticos e morais da profissão em um tribunal.
O texto foi inicialmente mal visto por muitos colegas de profissão, que consideraram que escrever um livro tão crítico em relação ao jornalismo seria uma traição. Hoje em dia, é estudado e celebrado em cursos de jornalismo no mundo inteiro. Na época, no entanto, uma matéria publicada por Albert Scadino, da The New York Times, dizia:
Usando o Sr. McGinniss como o jornalista prototípico, ela condena todos os repórteres e autores como vigaristas, “aproveitando-se da vaidade, ignorância ou solidão das pessoas, ganhando sua confiança e traindo-as sem remorso”. Suas declarações provocaram indignação entre autores, repórteres e editores, que se apressaram na semana passada para se distinguir dos jornalistas que a Srta. Malcolm estava descrevendo.
A recepção hostil que acompanhou a interpretação acima, compartilhada por muitos jornalistas, deve-se ao fato de que muitos tomaram como ofensa pessoal aquilo que foi proposto como uma reflexão sobre o que separa o escritor de sua fonte e a sua fonte da personagem que ela se torna na obra final. Reflexão essa que é fundamental para entender o trabalho jornalístico: ao propor a revisão da conduta da profissão, Janet Malcolm prepara o terreno para a realização inevitável de que o jornalista não é e nunca poderá ser o melhor amigo do homem. Quando o jornalista toma uma história para si, ele a transforma de maneira irreversível e faz com que ela deixe de ser do entrevistado, mas Malcolm observa que este último sempre parece se surpreender com a descoberta de que a história entregue nas mãos do escritor não mais lhe pertence:
Ao ler o artigo ou livro em questão, ele tem de enfrentar o fato de que o jornalista — que parecia tão amigável e solidário, tão interessado em entendê-lo plenamente, tão notavelmente sintonizado com o seu modo de ver as coisas — nunca teve a menor intenção de colaborar com ele na sua história, mas pretendia, o tempo todo, escrever a sua própria. (p. 11)
Dessa forma, ela rompe com a noção de que o escritor deve estar em função daquele que é tema do escrito: ele está sempre apenas em função de si mesmo e da história que ele pretende contar, pois a responsabilidade de escolher os rumos da narrativa não cabe ao entrevistado. A realização de que essa dinâmica, protagonista do caso MacDonald-McGinnis, é predominante nas relações escritor-personagem leva a autora a analisar dois aspectos do trabalho jornalístico, para os quais ela dá destaque ao longo do livro: o comportamento do jornalista e o limite entre o literário e o fantasioso na escrita da não-ficção.
A questão comportamental, para o desagrado de muitos colegas de profissão, parte do pressuposto de que o jornalista sempre acaba por ocultar, em parte, as suas convicções e os seus sentimentos — criando o que autora chama de um “estado de anarquia moral deliberadamente induzido” — para obter um trabalho bem sucedido. Em conversa com Janet Malcolm, o jornalista Bob Keeler, que acompanhou o julgamento de MacDonald e chegou perto de escrever um livro sobre o caso antes de McGinnis entrar em cena, associa essa omissão à imparcialidade:
Não acho que Jeffrey MacDonald percebeu jamais que eu o considerava culpado desde o primeiro dia em que comecei a escrever sobre o caso. Para mim, isso queria dizer que eu estava escrevendo de modo imparcial e justo. Ele nunca me perguntou o que eu achava, e eu nunca disse a ele o que eu achava, porque, na minha opinião, é assim que um jornalista deve se comportar. (p. 95)
O raciocínio da autora, ao apresentar esse argumento, reconhece que a relação escritor-personagem é determinada pelo vínculo entre os dois sujeitos ou, mais precisamente, a falta de um. Quando há uma relação pessoal, a responsabilidade de um autor para com o seu personagem é intensificada — e abre espaço para a traição da confiança estabelecida na relação. Nessa linha de pensamento, a conversa com Keeler levou Malcolm a pensar sobre como a sua própria relação com McGinniss, que evoluiu da escuta à desconfiança, reflete a relação entre McGinniss e MacDonald. Entretanto, justamente por não ter se tornado amiga do escritor, descarta a possibilidade do remorso em consequência de uma traição:
Eu tinha mais sorte que McGinniss, precisamente devido à sua recusa em falar comigo: ao banir-me, ele tinha me eximido da culpa que de outro modo eu teria sentido. (p.96)
A questão do limite entre o literário e o fantasioso no retrato de uma personagem, por sua vez, apresenta perspectivas interessantes sobre o quanto pode se perder na tradução para a página sem que uma pessoa venha a se tornar outra completamente diferente. O caso Masson-Malcolm exemplifica bem esse dilema, pois Janet Malcolm foi acusada de difamação por juntar diversas frases ditas por Masson durante meses como se elas fizessem parte de uma única fala. Segundo Malcolm, o fato é que, quando uma pessoa real torna-se personagem, é impossível transcrever tudo aquilo o que ela diz ipsis litteris. O jornalista que o fizer não terá diante de si uma matéria, porque o caminho do fato ao relato jornalístico é sempre atravessado pelo julgamento de quem escreve.
O conflito, conforme Malcolm o apresenta, reside na linha tênue que divide a figuração da especulação:
Eu aprendi sobre os personagens a mesma verdade que os analistas aprendem sobre os pacientes: eles contam a história deles para qualquer um que se disponha a escutar […] O meu McGinnis e o de Keeler eram a mesma pessoa, assim como meu MacDonald e o MacDonald de Keeler, e o de McGinniss. […] O jornalista não pode criar as suas personagens, nem o analista pode criar os seus pacientes. (p.99)
Entretanto, cabe notar que, em alguns casos, o escritor, sem qualquer má intenção, só não vê a personagem da forma como ela mesma se vê, e o confronto com um “eu” diferente daquele no espelho é sempre desconfortável: MacDonald não se viu representado no livro de McGinniss, e alguns jornalistas não se sentiram representados pela forma como Malcolm descreve a profissão em “O Jornalista e o Assassino”. E isso não significa que qualquer um dos dois autores necessariamente tenha faltado com a verdade em seu texto.
Janet Malcolm une essas considerações e fecha o seu livro da mesma forma como o começou, com uma verdade dura que dificilmente seria confessada por qualquer outro jornalista — mas também uma verdade que não poderá ser desmentida, muito menos depois de tudo o que a autora provou ao longo das páginas:
As personagens jornalísticas sabem muito bem o que as espera quando os dias de leite e rosas — os dias das entrevistas — chegarem ao final. E mesmo assim elas dizem sim quando um jornalista chama, e mesmo assim ficam espantadas quando veem o brilho da faca. (p. 141)
Impressões Pessoais
Esse livro já havia chamado a minha atenção há muito tempo, com a metáfora apresentada na primeiro aula do curso sobre o jornalista como inquilino da casa conhecida pelo nome de Realidade. A ideia me interessou porque me lembrou muito uma citação de um dos meus livros favoritos (“Babel”, de R. F. Kuang), que fala sobre tradução e diz que, enquanto um poeta corre livremente pelo prado, o seu tradutor dança acorrentado. Pesquisando mais sobre “O Jornalista e o Assassino”, descobri que as temáticas dos livros estão ainda mais próximas do que eu inicialmente percebi, porque a frase mais famosa de “Babel” se relaciona bastante com a tese de Malcolm:
Traduzir significa exercer violência sobre o original, deformá-lo e distorcê-lo para olhos estrangeiros e não pretendidos. […] Como podemos concluir, exceto reconhecendo que um ato de tradução é necessariamente um ato de traição? (p. 179)
Particularmente gosto muito de como a ideia de que toda tradução é um ato de traição — seja a tradução de uma língua para outra ou da realidade para um texto — traz implicações que, por um lado, vilanizam o exercício do tradutor e do jornalista, mas, por outro, exaltam a sua capacidade de levar a informação a lugares que ela jamais alcançaria sozinha. “O Jornalista e o Assassino” me trouxe uma nova maneira de explorar o assunto e certamente entra na lista dos meus livros favoritos.



