A IA está roubando o nosso direito de escrever mal
(Mais um) texto contra a IA generativa
Usar IA para escrever não é uma boa decisão. Mesmo com as complexidades dessa discussão, pelo menos conseguimos chegar nesse consenso. Um argumento recorrente é de que ferramentas como o ChatGPT escrevem mal — se exibem com a pontuação, exageram com verbos formais demais ou usam estruturas de frase cafonas — e, por isso, você não deveria usá-las.
Mas eu sou obrigada a discordar dessa lógica, se não por minha completa aversão à IA generativa, por puro medo de onde ela pode chegar. Escritores humanos cometem os mesmos erros. Isso quer dizer que eles também não deveriam escrever?
A discussão não deve ser sobre qualidade, porque textos ruins não são um problema de agora, e a solução para eles também não. Só se aprende a escrever bem lendo e escrevendo, muito e sempre.
E qualquer escritor que se preze sabe, inclusive, que essa corrida não tem linha de chegada: é um delicioso processo de uma vida inteira de leituras, textos e pesquisas de sinônimos numa segunda aba do Google.
Então não, nós não precisamos do ChatGPT para que as pessoas aprendam a escrever bem: já tomamos conta disso há séculos.
Entretanto, ele é uma alternativa bastante conveniente. Com a crescente facilidade de digitar prompts e receber longos textos sem qualquer erro de pontuação, parece que sumiram de vez os maus escritores. De repente, todo mundo está a um prompt de distância de entregar um texto perfeitamente compreensível. Talvez não excepcional, mas ainda perfeitamente compreensível.
Se olharmos pelo lado bom, pelo menos isso diminui drasticamente o risco de terríveis crises de asma (ou, às vezes, asfixia) causadas pela regra dourada de inserir vírgulas quando é hora de respirar…
Mas isso está muito longe de significar que mais pessoas estão escrevendo ou aprendendo a escrever. Às vezes, elas estão apenas gerando textos. E se o ato de pensar no que escrever não é a mesma coisa que escrever — eis o grande castigo de todo escritor —, pensar no prompt que dita o que será escrito também não é.
O que conta é parar, pensar e escrever. É verdade que, não raramente, os resultados desse processo não são tão bons assim. Depois de parar, pensar e escrever, você vai reler, se questionar e talvez perder a cabeça. Aí você vai repensar, reescrever e se questionar mais um pouco.
Se, ao invés de passar por todo esse processo, você só entregar um texto (ou a ideia de um) para a IA generativa, ela provavelmente vai lapidá-lo de forma bastante coerente — ela foi treinada para isso, afinal —, e você provavelmente vai se estressar bem menos. Eu estaria mentindo se dissesse que não vejo o apelo, mas será que vale a pena abrir mão do que é original pelo que é mais bonito ou mais correto?
Comentei sobre isso em outro texto aqui no Substack, mais especificamente em relação às artes de IA, mas o meu pensamento não muda tanto.
A IA avança. E a arte, como fica?
Na última semana, a trend do Studio Ghibli gerou um engajamento gigantesco nas redes sociais, e uma polêmica tão grande quanto. Se você vive debaixo de uma pedra, permita-me explicar: uma nova ferramenta lançada pelo ChatG…
Assim como na arte, o campo da escrita tem espaço para devaneios confusos, desabafos cafonas e ensaios que têm como fonte exclusiva as vozes da cabeça do escritor. E eles são infinitamente mais interessantes do que qualquer texto objetivo e mecânico que o ChatGPT possa escrever.
Entretanto, com a enorme conveniência de melhorar textos praticamente sem esforço algum, ninguém quer mais escrever à própria maneira — e muito menos aprender a fazê-lo. Ninguém se dá o direito de colocar as próprias ideias caoticamente organizadas em palavras, porque é muito mais tentador só entregar um texto que vai impressionar alguns por ser tão correto.
A solução realmente parece genial para quem “escreve” muito mais com muito menos tempo, estresse e esforço, mas falta questionar o que se perde nessa troca: agora, todo mundo parece ter uma mesma voz, e é até inútil tentar procurar algum traço de individualidade nos textos.
Onde foram parar os erros de digitação que são vestígios de um impulso criativo às 3h da manhã? Os exageros metafóricos que temos vontade de apagar quando relemos os nossos próprios textos? Os erros gramaticais dos quais morremos de vergonha?
Não podemos nos deixar esquecer de que existe algo um tanto valioso em ter a chance de reconhecer as próprias falhas e melhorar a partir delas. E criar algo que seja seu, verdadeiramente seu, mesmo que seja terrível, é mais importante do que pode parecer.
Faz parte da natureza humana: nós não guardamos os nossos rabiscos feitos na creche porque são obras de arte, mas porque são nossos. São pedacinhos de quem somos ou já fomos um dia, assim como tudo o que a gente pode criar.
Não precisamos de robô algum para escrever, e muito menos para aproveitarmos o processo maravilhoso que é a escrita. Eu sou suspeita para falar, confesso, mas peço que vocês deem uma chance a colocar os próprios pensamentos no papel (ou no computador) antes que a IA faça isso por você.
Sinta-se completamente livre para escrever mal, devanear sobre o que der na telha ou digitar mais e mais páginas sem um único sinal de pontuação no lugar correto.
Só não me entendam mal: defender a escrita sem a preocupação com a perfeição não significa que eu vou deixar de sentir uma dorzinha toda vez que uma vírgula separar o sujeito do predicado. Mas sinceramente? É melhor ler um texto sem pontuação do que sem humanidade.








braaaaaavo!