A IA avança. E a arte, como fica?

Na última semana, a trend do Studio Ghibli gerou um engajamento gigantesco nas redes sociais, e uma polêmica tão grande quanto. Se você vive debaixo de uma pedra, permita-me explicar: uma nova ferramenta lançada pelo ChatGPT permite que os usuários, a partir de um breve comando, tenham as suas fotos transformadas em animações no estilo do famoso Studio Ghibli. O sucesso foi tanto que a plataforma ganhou mais de um milhão de usuários pagos em uma hora. Mas o tempo necessário para gerar um alvoroço não foi muito maior.
Existem muitas coisas erradas com essa trend. De forma mais alarmante, o uso das animações do estúdio como inspiração para a produção de imagens viola os direitos autorais e o próprio legado de Hayao Miyazaki, criador do estúdio. Para produzir imagens no estilo de filmes como “A Viagem de Chihiro” ou “Princesa Mononoke”, as ferramentas de inteligência artificial precisam ter sido alimentadas com as artes nas quais elas devem se inspirar. A coisa toda seria perfeitamente legal (no sentido jurídico) se os artistas tivessem permitido o uso de seu trabalho para isso, mas eu tenho certeza absoluta de que isso não aconteceu – e explico o porquê.
O Studio Ghibli, ativo desde a década de 1980, sempre produziu suas animações de maneira manual: cada frame é desenhado por artistas em um processo artesanal marcado pelo cuidado e pela atenção aos detalhes. A valorização do trabalho manual é a máxima da criação, e isso por si só já é incompatível com as imagens feitas por inteligência artificial. Mas piora: o próprio Hayao Miyazaki já declarou, com as próprias palavras, que jamais usaria essa tecnologia em seu trabalho. Indo ainda mais longe, o cineasta afirmou que vê a criação artística por meio da inteligência artificial como um insulto à própria vida. O trabalho feito pela nova ferramenta do ChatGPT não está relacionado com e nem tem nenhuma permissão dos artistas, porque contraria todos os valores do estúdio.
Só isso já poderia encerrar a discussão – e a produção dessas imagens – de vez, mas o meu problema com essa trend vai muito além da questão pragmática de direitos autorais. Embora pareça superficial, ela é indicadora de algo muito mais profundo: a forma como as pessoas entendem e se relacionam com a arte hoje em dia. É indiscutível que, nos últimos anos, o verdadeiro contato com a arte tem se tornado cada vez mais démodé. As pessoas não têm (ou dizem não ter) mais o tempo e a paciência para assistir filmes longos, ler livros complexos ou visitar exposições. Um outro exemplo, que eu considero ser um verdadeiro sinal do fim dos tempos, é que muitas pessoas nem sequer escutam músicas inteiras, quem dirá um álbum – os 15 segundos do refrão que cabem em um vídeo do TikTok já são suficientes. Todos esses fatores distanciam a sociedade cada vez mais das artes, e eu temo que eles já tenham nos levado longe demais.
Chegamos tão longe que as coisas já ficam mais difíceis de enxergar, tudo meio embaçado. Estamos perdidos, mas como ninguém está perto o suficiente para ler as placas que indicam o caminho, inventamos um: tudo é arte. Até aquela imagem de um gatinho muito cabeçudo que a tia-avó de alguém pediu para o ChatGPT fazer, e até essas cópias descaradas do Studio Ghibli. Qual é, então, o critério para que algo seja considerado arte? Essa é uma questão interessantíssima para a qual, de forma meio socrática, ainda não tenho uma resposta concreta, mas tenho minhas considerações.
Um dos critérios mais enraizados no senso comum é o de beleza ou qualidade. A arte, para ser arte, precisa ser bonita, tanto que muitos aplaudem as imagens geradas por IA simplesmente por serem agradáveis aos olhos. E se não for uma coisa bem-feita (segundo os critérios de sei lá quem), não é boa o suficiente para ser arte. Sou obrigada a discordar. A arte é um conceito muito amplo, e certamente tem espaço suficiente para aquilo que é feio, torto, confuso ou mal elaborado. Com isso, não quero dizer que todas essas coisas merecem aplausos e elogios porque são arte. Só quero dizer que os defeitos não as tornam menos artísticas. Posso muito bem direcionar os piores xingamentos possíveis a um filme, e ainda assim reconhecer que o seu roteiro bagunçado e os seus efeitos especiais ridículos não o excluem do campo da arte. Afinal, quem sou eu – e quem é qualquer pessoa, sozinha – para ditar o que é ou não é arte? E será que isso precisa ser ditado?

Justamente por ser tão ampla, não consigo ver de que forma a arte se beneficiaria com critérios tão rigorosos. Seria como colocar um indivíduo – nesse caso, o artista – em um campo infinito de possibilidades, só para prendê-lo dentro de uma cerca de meio metro quadrado em seguida. Definir um limite limita a criação. Por isso, sempre fui uma a defender que nós não precisamos de um conceito exato da arte para apreciá-la e permitir que ela nos mova. Até que me apareceram as artes geradas por inteligência artificial, e algo sobre elas me incomodou desde o início (muito antes da trend do Studio Ghibli sonhar em existir).
De certa forma, elas me mostraram que talvez eu tenha me equivocado ao afirmar que não existe critério nenhum. Deixando a questão da estética ou da qualidade de lado, ainda é esquisito demais ver uma arte que só existe por existir. Só porque, com novas tecnologias, ela pode ser gerada, então assim foi feito: o processo de criação simplesmente some atrás dos prompts enviados aos robôs. Eu não seria capaz de ditar a regra de que toda peça artística precisa ser criada por meio de um processo complexo e intencional, porque esse pode não ser sempre o caso. Mas eu acho ignorante – e até triste – eximir a arte do processo de criação, porque ele faz parte da obra final. Com uma imagem, música ou história gerada por ferramentas de IA, o que você vê é tudo o que pode ser conhecido. A coisa toda se torna cada vez mais superficial.
Não existe subjetividade, um acontecimento da vida do autor que o levou a pensar assim, um motivo para a janela de um quarto mostrar uma paisagem noturna e não diurna. E o pior de tudo: não existe algo com o que você possa se relacionar. A arte nos impacta de formas diferentes justamente porque o modo como interagimos com ela é marcado pelas nossas experiências, que vez ou outra casam direitinho com as de um músico, cineasta, escritor, pintor, e por aí vai. A não ser que algum de vocês secretamente tenha uma lata de óleo debaixo da cama para desenferrujar as juntas, é seguro afirmar que nenhuma experiência nossa pode casar com alguma experiência da inteligência artificial que supostamente é capaz de escrever roteiros de filmes excelentes. Um robô não tem e nunca vai ter a experiência para fazer o que nós fazemos. A única capacidade que ele tem é a de talvez gerar algo agradável de se olhar, sem causar comoção alguma. E ele nem sequer tem as próprias ideias.
Que péssimo, péssimo, artista. Sem coração, alma, memória ou criatividade, a inteligência artificial só pode replicar e combinar diferentes pedaços daquilo que nossos conterrâneos humanos criaram antes. E só por meio de um processo de criação tão pobre que mal pode ser chamado de criação, com um resultado que é puro suco de blasé. Horrorizada com a possibilidade de uma arte assim, chego ao fim da minha retórica: posso não saber exatamente o que é arte, mas sei muito bem o que não pode ser. Ou melhor: posso não saber exatamente de onde ela vem, mas sei que não vai ser de nenhum robô que tanto tenta ser gente. Que ele faça suas contas, mas a arte fica nas mãos de quem realmente sabe ser humano.


