A gentileza é o novo punk rock
O novo filme do Superman e porque precisamos dele
Desde a última terça-feira, dia 8, o novo filme do Superman vem sendo exibido em diversas salas de cinema do Brasil e do mundo. Extremamente aguardado, o filme foi muito bem recebido pela crítica e pelo público, e praticamente monopolizou as redes sociais na última semana. Só se falava disso em todos os lugares por que passei nos últimos dias — majoritariamente porque eu estava falando.
Em contraste com os últimos filmes do herói, o Superman de James Gunn traz uma abordagem atual de um personagem quase tão antigo quanto o próprio conceito de super-heróis. Fugindo da óbvia história de origem do jornalista que revela ser de outro planeta, Gunn começa a sua história em um universo em que a presença do kryptoniano e de outros meta-humanos já é plenamente estabelecida. O longa não gasta mais tempo do que o necessário te explicando como chegou ali justamente porque dá muito mais importância para o que acontece depois.
A maior parte do enredo gira em torno do envolvimento do Superman no conflito entre Boravia e Jarhanpur — que, assim como o conflito real a que faz clara alusão, provavelmente seria melhor descrito por outro nome que não eufemizasse a sua crueldade — e das consequências diplomáticas da ação do herói na relação entre a nação da Boravia e os Estados Unidos. De forma concisa e inteligente, ao escrever essa parte do roteiro, Gunn não só faz um protesto como também encontra uma maneira de retomar aquilo que o Superman realmente representa. O personagem não é um defensor dos Estados Unidos, mas da humanidade. Independentemente dos interesses políticos — que são muitos — , a sua preocupação é com a justiça e com o bem-estar de todos.
Seja em uma Metrópolis à beira do colapso, seja na fronteira de um país prestes a ser invadido, o Superman é um símbolo de esperança até mesmo quando parece não existir mais nenhuma. Ele é quem você chama para lutar pela humanidade quando ninguém mais está disposto a fazê-lo — e, mesmo quando ele não aparece por motivos de força (muito) maior, é ele quem inspira os outros a continuarem lutando. E essa é uma outra distinção interessante que ressalta ainda mais a pureza do personagem: diferentemente dos outros heróis presentes no filme, o Superman não age em nome de ninguém além de si mesmo e do que ele acredita. Não há nenhum interesse, apenas um amor pela humanidade tão genuíno que chega a ser ingênuo.
E o que o filme nos mostra, ultimamente, é que precisamos dessa confiança inabalável no mundo e nas pessoas, talvez mais do que nunca. Que, por mais que nem sempre pareça, continuar botando um pé na frente do outro e acreditando nas pessoas ainda vale a pena. Que ser gentil quando ninguém mais tenta ser é disruptivo e vai na contramão da desconfiança que tantas vezes nos deixa sem esperança alguma — é punk rock pra caramba. O Superman nos lembra de quem deveríamos ser, e a sua humanidade nos lembra que a resiliência de continuar tendo esperança não é tão inalcançável assim.
E se o Superman é capaz de representar tudo isso, é só porque, antes de vestir o traje, ele é um cara aparentemente tão ordinário quanto qualquer um de nós. A vida perfeitamente normal de Clark Kent é o que permite que ele acredite tanto no mundo: ele sabe que é possível acreditar na bondade e no amor porque cresceu cercado disso, e continua assim em sua vida adulta. E ele escolhe, todos os dias, dar o seu máximo para continuar vivendo assim e levando esses valores a outras pessoas também.
Um ponto do filme que tem gerado muita controvérsia é a revelação de que os pais biológicos de Clark o enviaram ao planeta Terra não como um salvador, mas como um conquistador. E é com muita dor no coração que eu preciso dizer algo que eu nunca achei que iria dizer: eu estou completamente do lado do James Gunn nessa. Por mais desconcertante que a descoberta seja de início, ao meu ver, ela não faz nada além de reforçar que o Superman é o símbolo de esperança que é não porque nasceu para isso, mas porque o Clark levanta todos os dias e escolhe ser a melhor pessoa que pode, fazendo o maior bem possível.
Algo que as histórias do personagem em geral certamente não falham em provar é que o mundo precisa do Superman. Mas o Superman de 2025 é a história de que o mundo precisava porque nos lembra de que a nossa salvação não é nada de outro planeta — é a nossa própria humanidade.





gio, faz uns dias que estou relendo o texto. dormindo na tua calçada. hoje deixei a sala de cinema emotiva no embalo da tua olhadura; fui lembrando das colunas que você teceu aqui, de repente, você estava sob aquela capa também. um retalho brilhante! e te acho muito super! parabéns, querida! ❤️ que a gentileza nos arrebente :)))))
fiquei levemente reflexiva com o texto… nunca tinha pensado nada desse tipo