A esperança mais brilhante do pop é uma rock star?
“Olivia Rodrigo, a esperança mais brilhante do pop, pode muito bem ser uma rock star” foi a manchete do perfil escrito por Caryn Ganz (The New York Times) algumas semanas antes do lançamento do álbum Guts em 2023.
À época, as palavras poderiam parecer um palpite, mas Ganz estava no caminho certo quando afirmou que o estrelato pop era como um cavalo de Troia no qual Olivia traz toda a audácia e a intensidade do rock para as paradas musicais.
É verdade que a cantora recebeu o título de “diva pop” antes mesmo de subir nos palcos: o mero lançamento de drivers license já a colocou na mira de fãs de pop no mundo inteiro, e as coisas só progrediram a partir desse ponto. Mas também é verdade que ela não demorou para mostrar que não planejava se apegar a ele.
Em apenas duas semanas, a War Child Records lançará o HELP(2), um álbum beneficente com o intuito de arrecadar fundos para apoio psicológico, educação e proteção de crianças afetadas por conflitos armados no mundo todo.
A tracklist reúne diferentes gerações do rock, de Pulp e Depeche Mode, da década de 80, passando por Arctic Monkeys, favorita dos anos 2000, chegando até a elite do indie rock atual, com nomes como Fontaines D.C., Black Country, New Road, Wet Leg e The Last Dinner Party.
A última faixa, no entanto, é assinada por Olivia Rodrigo, suposta princesa do pop que, de alguma forma, não destoa nem um pouco de todos os rock stars com quem trabalhou no álbum…
Muito pelo contrário, ela é, inclusive, muito bem-acolhida por eles e por todos os outros veteranos do rock com quem colaborou, que não são poucos e nem qualquer coisa: David Byrne, da Talking Heads, Avril Lavigne, os membros da Weezer e Robert Smith, da The Cure, já subiram no palco em apresentações de Olivia.
A cantora, por sua vez, já foi convidada para homenagear a The White Stripes no Hall da Fama do Rock & Roll 2025, para se juntar a Gwen Stefani em um show da banda No Doubt e para cantar deja vu em um show de Billy Joel (citado na música). As colaborações com David Byrne e Robert Smith levaram até a covers lançados no Spotify.

Meu intuito aqui não é, de forma alguma, dizer que Olivia Rodrigo não é uma pop star por estar “acima” do gênero, até porque ela escreve e canta músicas pop — ela só está em um rumo diferente. Ainda assim, arrisco dizer que é impossível negar que esse caminho que ela tem pavimentado pra si mesma realmente a distingue no cenário da música atual.
Hoje em dia, artistas que tomam a iniciativa de olhar para trás ao invés de apenas imaginar o que vem a frente mostram que a intenção faz toda a diferença — e o repertório também.
Desde o início de sua carreira, Olivia demonstra estar plenamente ciente de que cada um de seus passos é sustentado por quem veio antes, e sempre faz questão de que o seu público saiba disso.
Pensando em números ou visualizações, a cantora poderia convidar outros artistas do Hot 100 da Billboard ao palco, ou citar músicas em alta nas redes sociais quando perguntada sobre referências e favoritos.
No entanto, ela escolhe dedicar um momento do próprio show para que milhares de jovens garotas que nunca ouviram falar da Weezer escutem Buddy Holly pela primeira vez ao vivo (não consigo deixar de invejá-las, confesso).
O que fica evidente é que o repertório de Olivia a coloca em um lugar interessante no cenário musical. Ela escreve muito pop para ser considerada uma rock star, mas se alinha demais a outros rock stars para ser considerada apenas pop star. E o resultado disso, por sua vez, é mais interessante ainda: uma ponte entre os gêneros.
Enquanto domina as paradas musicais ao lado de divas pop, Olivia também conquista a atenção de quem vê nela — na sua presença de palco, nos seus solos de guitarra e nos seus convidados — uma faísca do rock que não aparecia tão claramente no mainstream há um bom tempo.
E ela tem provado que sabe fazer essa ponte muito bem, levando o rock* até o público que vai ao seu show pelo pop e até mudando a percepção que fãs de rock têm sobre pop stars.
*E não só o rock clássico de todas as lendas que vieram antes dela, por sinal, mas faço essa observação apenas para dizer que o cover que ela fez da música I Love You, lançada em 2022 pela banda irlandesa Fontaines D.C., é o meu favorito de todos os que ela já fez.

A distinção entre o pop e o rock costuma diferenciar públicos de acordo com as suas preferências, mas, em sua discografia, a combinação faz é diminuir a distância entre os gêneros que se proclamam tão diferentes.
Unindo o melhor dos dois mundos, Olivia consegue unir, também, diferentes gerações e públicos em seus shows — e não é, pelo menos um pouco, sobre isso que é a música em primeiro lugar?
Podemos não saber encaixar a cantora em um gênero ou outro, mas não restam dúvidas de que, seja no pop ou no rock, Olivia Rodrigo é uma estrela. E, aos seus recém-completos 23 anos, ela está só começando.






