A Barbie de Greta Gerwig não é só a sua boneca ordinária: ela é tudo
Barbie é, sem dúvidas, um dos filmes mais aguardados do ano. Desde seu anúncio, cinéfilos, não cinéfilos, homens, mulheres, crianças e adultos vêm especulando o que um filme da Barbie poderia significar, que história ele iria contar e como o faria. A cada teaser, pôster ou entrevista lançados, o público desvendava um pouquinho mais do mistério que é o cérebro de Greta Gerwig. Com tantas cenas publicadas durante a tour de imprensa, muitas pessoas achavam que já tinham visto o filme inteiro, desvendado o mistério por completo. Mas elas não chegaram nem perto: com o seu cinema quase místico e sempre consciente, Greta Gerwig conseguiu subverter e superar todas as expectativas, pois, assim como a sua mais nova protagonista, ela veio para mudar tudo.
Interpretada pela maravilhosa Margot Robbie, a nossa Barbie protagonista vive na promessa de eternos dias incríveis e noites de festa do pijama até que, subitamente, ela tem um dia não tão perfeito: seu cabelo acorda bagunçado, seus calcanhares estão no chão, ela cai — e não levita — ao sair de casa e o seu café da manhã, além de queimado, vem com crises existenciais como acompanhamento. À luz desses eventos atípicos, a boneca descobre que precisa visitar o mundo real para descobrir a raiz de seus problemas, e, com sorte, consertá-los. Junto com o Ken de Ryan Gosling, que tem uma experiência infinitamente oposta à sua, Barbie percebe que o mundo real não é nada do que imaginou e, numa corrida contra o tempo e a imperfeição, ela precisa aprender o que significa ser uma Barbie tanto dentro quanto fora de seu mundo.
O filme não poderia ser mais atual do que já é, nem se quisesse. As discussões colocadas em pauta pelos personagens são discussões que acontecem agora, no nosso mundo real, e suas abordagens são cirúrgicas até mesmo em forma de piada. Quando personagens como a Barbie, a Gloria (America Ferrera) ou o Ken abrem seus corações e compartilham suas angústias, suas vozes não são apenas suas, mas também de milhares de pessoas, estejam elas na plateia ou não. Um dos principais memes compartilhados antecipando a estreia do filme consistia no público se comparando aos personagens de forma humorística (sim, eu estou falando do “literalmente eu”), e, ironicamente, ele é verdade. Nenhum dos personagens é colocado em um pedestal intocável e nem é condenado pelo seu legado: eles são todos extremamente humanizados e, por isso, poderiam muito bem existir em nosso cotidiano (e provavelmente existem).
Uma das características mais perceptíveis e mais discutidas do trabalho de Gerwig é a sua inerente feminilidade — não apenas a feminilidade na aparência, a de maquiagens, cabelos e roupas brilhantes, mas também a feminilidade em ser mulher e descobrir o que isso significa, seja no século XIX (como em Adoráveis Mulheres), no ensino médio (como em Lady Bird), no mundo real ou na Barbieland. Especificamente em Barbie, a cineasta coloca um pé no existencialismo ao explorar as distâncias e proximidades entre a nossa realidade e o suposto mundo perfeito, nos apresentando mulheres de dois universos opostos que, ainda assim, se entendem perfeitamente e são capazes de compartilhar dores, inseguranças, triunfos e dificuldades.
Sempre existiu e sempre existirá um quê de universalidade na experiência de ser mulher, e é exatamente nesse ponto que a diretora trabalha. Suas críticas são abrangentes demais para se filiarem a um ideal específico e, por isso, parece simplista afirmar que Barbie é apenas um filme feminista (até porque existem correntes do feminismo que bateriam de frente com as suas ideias). Ele é, na verdade, um filme essencialmente feminino que busca o conforto na aceitação de que não existe uma única forma de ser uma menina, uma mulher, uma mãe, uma Barbie ou até mesmo um Ken — e é exatamente essa a mensagem que ele deixa, em forma de um abraço metafórico, para o público. A mensagem é para todos, mas, assim como em seus outros projetos, a Greta Gerwig deixa um carinho a mais para jovens mulheres, e todas nós nos sentimos muito abraçadas por ela.
E não, o filme da Barbie não é contra homens. Essa é uma afirmação equivocada circulando com muita força pela Internet, e eu sugiro que seja repensada. Primeiramente, essa ideia partiu de piadas que nem deveriam ter sido levadas ao pé da letra em primeiro lugar. Mas o que Barbie faz é inverter de forma risível os papéis sociais e colocar os homens no lugar das mulheres — se isso pareceu ofensivo para os homens que assistiram o filme, talvez valha a pena questionar o porquê.
Em seu aspecto cômico, o filme é perfeitamente ácido e deliciosamente hilário. Margot Robbie é impecável na entrega de suas falas e as piadas metalinguísticas fizeram a sala de cinema inteira gargalhar, mas é impossível não exaltar a performance excepcional de Ryan Gosling. Esse é, verdadeiramente, o papel que ele nasceu pra interpretar, e ele brilha ao fazê-lo. Uma indicação ao Oscar é praticamente certa, e eu estarei na torcida por essa e muitas outras estatuetas para Barbie desde já.






